#maisGNU

gnu-noel4Será necessário muito empenho e determinação para manter algum nível de coerência nessa última resistência ao avanço da infecção da ideologia do “Open”. Somos a última geração capaz de reverter o quadro onde “aberto” foi forçado como sinônimo de livre, exatamente para conter a liberdade. O ativismo que defende a ideologia do Software Livre foi marginalizado, é vítima de ataques covardes e confrontado com argumentos que inflamam o antagonismo. Acredite, não é sem querer.

Veja o caso dos dados abertos governamentais. Porque não nomeá-los como Dados Livres Governamentais? Se você se der ao trabalho de ler a LAI – Lei de Acesso a Informação, verá que a definição é exata para os termos de liberdade e não de “abertura”. Remete diretamente ao “open documents”, que, aliás, é outro exemplo perfeito da dominação do “Open”. Porque “open documents” em vez de “free documents”? A resposta simples para esse “trocadalho do carilho” é que um software pode ser aberto sem ser livre. E os podres poderes e seu séquito, sabem que não há como burlar a liberdade, mas sempre há como burlar a “abertura”.

Quando se usa a filosofia do Software Livre para colocar o usuário em primeiro lugar aparece, de imediato, uma horda de defensores do livre mercado, do pensamento OSIsta e dos modelos de produção para dizer que estamos dificultando sua adoção. Isso é tão absurdo quanto dizer que a filosofia vegana coloca em risco a vida dos animais. Não importa o quanto se tente distorcer os argumentos, a liberdade do usuário é mais importante pelo simples fato de abalar as estruturas das relações técnicas e comerciais entre os usuários e os fornecedores de tecnologia.

A ação coletiva #semUbuntu encontrou uma forma de despertar o debate. Incoerente, limitada e estreita, mas eficiente: escolher um alvo. O movimento Software Livre já se utilizou desse mesmo expediente antes e funcionou muito bem. Um dia foi a Microsoft. E quais motivos fizeram com que todos os ativistas da liberdade do software apontassem seus canhões para Redmond?

  1. Era o padrão de mercado: A Microsoft era hegemônica, forte, arrogante, inescrupulosa e agressiva nos negócios (era?), ou seja, não hesitava em agredir, combater, difamar e até mesmo comprar quaisquer pessoas ou empresas que pudessem ameaçar seus negócios;
  2. Representatividade: esse comportamento vil, como exemplo do que não presta no modelo tradicional de relacionamento com seus clientes, representava perfeitamente o que era necessário combater;
  3. Qualidade de software: qualquer profissional mais gabaritado não hesitará em dizer que os Softwares da Microsoft são ruins. Então mostrar a qualidade dos softwares feitos comunitariamente e confrontá-los com as soluções corporativas da Microsoft era tarefa cotidiana;
  4. Doutrinação: a forma como a Microsoft lidava com o mercado, investindo muito mais em marketing para vender do que na qualidade dos softwares ou no bom atendimento aos seus clientes, criou multidões de seguidores apáticos e doutrinados que aceitavam qualquer desmando sem questionamento. Então era perfeito mostrar que os usuários deviam ter consciência critica e se contrapor;

Agora substitua Microsoft por Ubuntu e perceberá que está acontecendo a mesma coisa. Só que agora de uma forma muito mais camuflada e perigosa, pois se supõe que a Canonical é uma empresa amiga. Mas não é. E é claro que não é a única.

A defesa da liberdade do software e de seus usuários é muito maior e mais ampla, mas a comunidade Software Livre perdeu complemente seu foco. Nos últimos anos parece que os argumentos mercadológicos se sobrepuseram aos filosóficos, “Open” virou mais do que “Free”, Linus passou a ser mais referência de liberdade tecnológica do que Stallman e o Linux, aquele kernel, está tão contaminado de softwares privativos, que não há mais justificativa para classificá-lo como Software Livre.

A maioria esmagadora das distribuições GNU/Linux não são livres. A simples distribuição de drivers não livres garante isso. Então não tente justificar o seu uso, faça algo para mudar isso. Exija mais coerência do FLISOL, do FISL, do Latinoware, mas também da comunidade de desenvolvedores da sua distribuição favorita. Acredite, eles se incomodam muito com as criticas, o que significa que se você reclamar eles vão apenas ouvir, mas se muitos reclamarem eles vão mudar. Se não mudaram ainda é porque você não está reclamando o suficiente. O mesmo raciocínio pode ser empregado para os fabricantes de notebooks e smartphones cujos componentes só funcionam com drivers privativos: eles são assim porque você não tem se importado com isso.

Terceirizar a responsabilidades é uma excelente forma de se desculpar pelo uso de software não livre. Perceba que eu estou dizendo claramente que você sabe que está fazendo isso, que você sabe que é errado, mas se convenceu de que não há outra forma. E o mais grave é que você está repassando esse conceito, essa rendição, essa resignação para os novatos, para seus familiares e colegas de trabalho. Então em vez de ser um vetor de transformação social, ajudando a libertar os usuários, você se transformou em um vetor de aprisionamento. Você vende liberdade e entrega algemas.

É claro que você pode continuar sentado em frente ao seu computador, usando Ubuntu, Steam, NetFlix, Skype, Gmail, Facebook e toda sorte de outros programas não livres, se desculpando a cada critica e ajudando outros a se encarcerarem. O resultado disso já pode ser percebido: a Microsoft publicou a adoção massiva de Open Source e seu amor pelo Linux. A Linux Foundation retribuiu o carinho e disse que a Microsoft é uma grande parceira! Por que? O ambiente favorável. Não há mais criticos contundentes, nem comunidades pensantes para fazerem o controverso como ela deve ser feito.

Muito pelo contrário, defensores históricos do Software Livre estão tão convencidos de que é necessária uma certa flexibilidade, convivência e até aceitação de software não livres, que chegam a comemorar essa paixão súbita entre a Linux Foundation e Redmond. Alguns vão além: promovem festivais de instalação de software livre onde se instala software não livre. Outros promovem campeonatos de jogos não livres em eventos de Software Livre. Tudo em nome de facilitar a adoção de Software Livre. Isso faz algum sentido para você? Sempre que descrevo esse cenário me vem à mente a metáfora do médico pneumologista que receita 2 cigarros por dia para melhorar a condição respiratória de seus pacientes, ou ainda, do vegano que convida os amigos para um churrasco de novilho para explicar os benefícios de uma dieta sem alimentos de origem animal.

A ação coletiva #semUbuntu é apenas a ponta de lança do velho Movimento Software Livre que quer #maisGNU. Incoerente, limitada e estreita. Mas se você está lendo este artigo, a ação está atingindo seu objetivo. Junte-se a nós entrando no Grupo do Software Livre no Actor clicando aqui: GRUPO SOFTWARE LIVRE

Saudações Livres!