Entrevista à Folha de São Paulo

Esta é uma entrevista que dei ao repórter Lucas Thomaz de Agrela, no dia 11 de Julho de 2013 por e-mail.
Achei que ficou legal e decidi publicar por aqui também.

Saudações Livres!

Folha – Você acha que as redes federadas são uma alternativa ao monitoramento de dados? Por quê?

As redes sociais federadas são a única solução realmente eficaz contra o monitoramento de dados. Isso porque a federação dos servidores, seus usuários e dados torna impraticável o monitoramento. Assim como não se consegue monitorar todas as conexões Torrent do planeta, nas redes federadas seria necessário ter acesso a milhões de servidores diferentes para ser possível fazer algum monitoramento eficiente. Considere que qualquer empresa, grupo de usuários, provedor, órgão governamental pode ter seu servidor próprio e perceberá o quão ineficiente seria tentar. As ferramentas e redes sociais devassas, como Facebook, G+, Google, Gmail, Skype e Windows, mantém bases centralizadas de dados, assim fica muito mais fácil de fazer as análises desejadas e, claro, as indesejadas também.

Folha – Quais redes sociais podem ser adotadas como substitutas para as atuais?

Há diversas delas mas as mais contundentes seriam o Diáspora para substituir o Facebook, Jitsi para Skype e Pump.io para Twitter, Zimbra para Gmail e ownCloud para Dropbox.

Folha – O que deveria ocorrer para haver uma migração em massa para esses sites?

Seria necessária a tomada de consciência da população usuária da Internet, assim como o povo tem buscado o direito a democracia e liberdade no oriente médio! Neste caso seria a verdadeira primavera cibernética, pois todos teriam que estar embuídos de civilidade para lutar pelo direito a privacidade, direitos humanos digitais, neutralidade da rede e democratização do conhecimento tecnológico. Apenas esses componentes juntos serão capazes de frear os interesses de mega empresas e governos com sangue imperialista. Assim os Softwares proprietários e as redes sociais devassas seriam abandonadas para sempre, e em seu lugar, as federadas , livres e seguras seriam utilizadas.
Infelizmente o processo é muito mais lento. Convencendo um por um, amigo a amigo e em especial os ativistas que tem suas contas encerradas nessas redes sociais devassas, vamos como canta o Lulu Santos: “com passos de formiga e sem vontade”. As pessoas colocam sua comodidade acima de seus direitos individuais e assim colocam o coletivo em perigo.
O uso de argumentos como “eu não tenho nada a esconder” apenas permite que o monitoramento seja feito sem ônus, financeiro ou político. É a mesma coisa de taxar todos os políticos de “ladrão” e se recusar a votar. Isso não fortalece a sociedade, nem a democracia, nem muda nada. Mudança pressupõe esforço, tenacidade e convicção de que se está fazendo a coisa certa.

Folha – A denúncia do PRISM foi um reflexo da falta de cuidado ao aceitar termo de serviço de sites?

Na verdade não. O PRISM não é um programa de monitoramento das empresas, mas do Governo norte-americano. O maior erro das empresas foi permitir o monitoramento dos dados de seus usuários sem informar nada a ninguém. As pessoas tem que ter o direito de escolher se querem ou não proteger sua privacidade, e se decidem não fazê-lo pagarão um preço. Mas o acordo com todas as empresas seria de que seus dados não estariam disponíveis para terceiros. Teoricamente os dados seriam acessados exclusivamente pela própria empresa e com fins de traçar perfis de consumo e nada mais. Mas de falácias, palavras de duplo sentido e toda sorte de enganação o mercado está repleto. É uma prática comum em nosso capitalismo exploratório: deturpar o objetivo e fazê-lo lindo, agradável e cool!
O mais correto aqui seria juntar a “fome” do governo pelos dados coletados por essas empresas, com a “vontade de comer” que essas empresas despertam em toda a população, fazendo com que os usuários forneçam todas suas informações gratuitamente, achando que estão na moda!

Folha – Você acredita que legislação brasileira protege os dados dos internautas?

A legislação brasileira não protege coisa alguma na Internet. Infelizmente nosso parlamento é composto majoritariamente por pessoas idosas que sequer sabem o que é um e-mail. Trata-se de um verdadeiro parque dos dinossauros. Mal assessorados e com todos seus esforços focados em manter seu cargo eletivo, nossas leis cibernéticas são velhas, ineficientes, inoperantes e impraticáveis. Isso é tanto verdade que a Anatel tomou para si o papel de regulador de algumas questões, passando por cima, inclusive do CGI.BR – Comitê Gestor da Internet no Brasil. Infelizmente a Anatel atende os interesses das empresas de comunicação e não os interesses do povo, então é evidente a ingerência mercantilista sobre os dados da Internet no Brasil é feita, em detrimento dos direitos humanos na rede.
A alguns anos o CGI.BR em conjunto com a comunidade de TI do país elaborou a lei mais moderna do mundo no que tange aos direitos do Internauta, chama-se Marco Civil da Internet. Mas infelizmente ela está parada no legislativo por contrariar os interesses de monetização das Teles, vide o parágrafo que trada da neutralidade da rede, que bate de frente com o defendido pelo Sinditelebrasil, que almeja comercializar o acesso a Internet nos mesmos moldes das TV’s por assinatura, ou seja, vendendo planos por tipo de conteúdo acessado e não por largura de banda.

Folha – Você acredita que o formato de rede social atual seja apenas uma plataforma de publicidade que estimula a comunicação entre internautas?

O estímulo á comunicação é o catalítico necessário para cegar os usuários. Os humanos são serem ridiculamente sociáveis, com um grau de carência muito além do aceitável. O problema não está na rede social, muito pelo contrário. O problema está na ferramenta escolhida. Porque privilegiar uma ferramenta proprietária, que vai monitorar seus dados e que pertence a uma empresa estrangeira? E a resposta vem da propaganda. Nos convencem diariamente de que estar nelas é jovial, moderno e até mesmo revolucionário, quando na verdade tratam-se de maquinas de fazer dinheiro com as informações que você dá de graça! E de quebra ajudamos na evasão de divisas e promovemos o monitoramento por governos com tendências imperialistas.
Primeiro o Rei estava vestido, agora ele está nu. Vamos fingir que não estamos vendo? Vamos fingir que não é conosco?
Esse é um excelente momento para abandonar as redes sociais devassas e os softwares proprietários para deixar claro, que como bons Internautas, não aceitamos os desmandos e interesses políticos e econômicos de ninguém!

Anahuac