Yes, we fan!

É claro que o assunto parece batido e amassado, mas depois do anúncio do novo Hangout pelo Google, eu não poderia me ausentar de relembrá-lo sobre a sua cegueira de fã. Empresas como Apple, Samsung, Google e Canonical transformaram a tecnologia em algo divertido, agradável e consumista. É muito legal ter um tablet, mas é ainda mais legal se ele for um iPad. E é muito exclusivo ter um S4, especialmente porque não há nenhum motivo plausível para que ele custe o mesmo que um notebook i7 com 8Gb de RAM e 1TB de disco. Seguindo a mesma estratégia da moda, onde o mesmo pano, desde que confeccionado por um ou outro custe de 30 a 300 mil “dinheiros”, trata-se de Grife pura e simples. E neste caso a exclusividade não é só de quem pode pagar, mas para quem o fornecedor quer vender. É como ter uma Ferrari: não adianta ter só o dinheiro se não for aceito no seleto clube de pessoas a quem a Ferrari vende seu carros. Pois é, não basta ser rico, tem que pertencer à gangue!

Mas empresas como o Google e Canonical tinham um componente a mais, elas criaram seus produtos com pitadas de responsabilidade social, ecológica e de liberdade. Nos fizeram acreditar que eram empresas conectadas com a tendência de que é possível criarmos um Mundo melhor, mais justo e fraterno. É claro que a maioria esmagadora dos ativistas de várias tendências, caíram feito “patinhos” nessa balela. Eu inclusive.

Essas são empresas e como tal, são sociopatas. O documentário http://thecorporation.com/ deixa isso claro e por isso recomendo muito que ele seja visto. Eles só visam uma coisa: lucro. Nada mais. E nesse processo vale tudo, inclusive mentir, contradizer-se, processar os concorrentes, comprar as menores e até mesmo reverter posturas negociais consolidadas. A Microsoft e Oracle sempre foram excelentes exemplos dessa mecânica suja de negócios, onde o objetivo maior é atingir o monopólio e fazer o mercado engolir seus produtos mal feitos. E não há outra forma de explicar sua representatividade de mercado, afinal foi pelo monopólio que chegaram a ter impressionantes 95% de suas respectivas fatias de mercado. Mas o mais impressionante é que eles conseguiram, também, criar uma legião de fãs, cegos, surdos e loucos, que continuam usando seus produtos, defendendo suas técnicas de mercado e são avessos a qualquer argumentação em contrário. São esses que ainda usam Internet Explorer e gostam.

O fanatismo desses usuários é algo que se perpetua nas ferramentas do Google, seu buscador e serviço de chat e vídeo, por exemplo. A ferramenta é tão boa que consegue fazer frente ao Skype, mesmo depois de sua aquisição pela Microsoft. E a razão de sua qualidade e popularidade era o fato de se basear em um protocolo livre conhecido por “jabber”. Esse é um protocolo livre e aberto e assim permitia que os serviços de comunicação do Google fossem integrados com diversos outros servidores e serviços disponibilizados na Internet. Assim era possível usar uma conta de qualquer servidor Jabber para conversar por chat, áudio e vídeo para se comunicar com qualquer usuário do Gmail, por exemplo. Então a disseminação se deu, o mercado foi cativado e graças ao sentimento coletivo de que o Google respeita sua privacidade e liberdade, ele foi amplamente adotado. E essa adoção massiva criou a massa crítica necessária para que o “golpe” fosse dado. A partir do novo Hangout essa interoperabilidade não será mais possível. É isso: subitamente meus contatos que tem contas no Gmail/Gtalk não mais conseguirão se comunicar, via chat, comigo, e vice-versa.

É claro que muitos defenderão a estratégia do Google, assim como não faltaram paladinos para apoiar a cretinice da Canonical quando colocou um Spyware no Ubuntu sem avisar nada a ninguém. Dirão que se trata de uma empresa e que se ela quiser crescer e se manter no mercado ela precisa inovar, e se para inovar ela precisa eliminar a compatibilidade com os protocolos abertos, isso é válido. Discordo, é claro. A Google já deu sinais claros, desde faz uns anos, de que não respeitará nada nem ninguém. Ela sugará do mercado, dos novos modelos de desenvolvimento colaborativo, e da comunidade FOSS tudo o que puder, mandando migalhas aos porcos para os fazer felizes. Um desses mecanismos é o tal Google Summer of Code, que se esconde atrás da pecha de apoio acadêmico e estímulo à inovação e leva brilhantes jovens cérebros a criar e desenvolver soluções fantásticas a troco de premiações ridículas.

Então a Google vai incompatibilizar o protocolo de comunicação, isolando seus usuários dentro de seu próprio serviço. Será o novo Skype, que quando foi comprada pela Microsoft, eliminou o plugin que permitia a conexão com o Asterisk, ou seja, isolando seus usuários. O passo seguinte da MS foi monitorar de forma ainda mais descarada as conversas, inclusive acessando URL’s e usando usuários e senhas que são reveladas nas conversas.

Então essas empresas usam todos os meios disponíveis para isolar, monitorar e monetarizar seus usuários, e quanto mais elas se tornam agressivas nesse sentido, mais fãs elas conseguem. O nome disso, na psicologia moderna, é complexo de Estocolmo. Não faz nenhum sentido que usemos ferramentas que nos causem danos, mas os verdadeiros fãs não conseguem perceber o mal que lhes é infligido. Me lembro bem caso da banda Metalica, que no auge da discussão sobre legalidade ou não de se compartilhar músicas por meios P2P, terminou declarando que consideravam essas pessoas criminosas e que todas deveriam ser presas! Eles só esqueceram que esses tais “criminosos” eram, ou são, seus fãs, os verdadeiros responsáveis pelo seu sucesso e riqueza.

Facebook com seus entreguismo à CIA e FBI, a Canonical com seus Spywares escondidos, o Skype com seu monitoramento ativo e agora de forma franca o Google, com a criação de seu curral de usuários. É assustador o que vem por ai.

Mas o que mais me preocupa é que os ativistas, especialmente os do movimento Software Livre, estão rendidos, estupefatos, silenciosos, como as fãs do Justin Bieber. Ainda me lembro do tempo que éramos a vanguarda, críticos e combativos. Quando acreditávamos que privacidade, liberdade e respeito aos direitos dos usuários de TI estavam acima de qualquer firula ou gracinha provida por qualquer grande player do mercado. É claro que havia um grupo de exceção, que só usava FOSS apenas porque era tecnicamente melhor, mas a situação hoje é tenebrosa. Estamos sucumbindo, um a um, às ditas facilidades e conveniências dessas ferramentas e suas empresas fantásticas. Estamos perdendo para nós mesmos.

É claro que podemos inventar qualquer desculpa, mais ou menos coerente, mas não há como negar que se submeter a essas ferramentas e suas políticas de uso e licenciamentos, é nocivo. Nocivo à liberdade, ao respeito ao cidadão e à cidadania e poderá condenar para sempre o tal “Mundo Melhor”. Insisto: usar essas ferramentas não ajuda sua causa social “do bem”, seja ela qual for. Não há coerência nenhuma em usar armas de fogo para defender a paz, por exemplo.

Então o que explica a massa de ativistas que se aprisionam nessas ferramentas? Como conseguem se esconder atrás das finas estacas do curral no qual se transformaram FaceBook, Google, Skype e Canonical? Como podem acreditar, por um segundo sequer, que estão ajudando as pessoas e o Mundo se submetendo a suas praticas vis de negócio e conquista de mercado? Como podem aceitar serem os vetores de entrada e permanência de pessoas que os tem como referência, nessas redes de pesca cybernetica? Como defensores das liberdades se aprisionam assim? Como os defensores da privacidade se depravam assim? Como os combatentes da corrupção se corrompem e ajudam a corromper assim? Mas verdade é que somos incoerentes por natureza: o próprio documentário que citei acima, está disponível para compra, por um dos sites, de uma das corporações mais sinistras da atualidade, o iTunes. É mole?

O mais provável é que este artigo, assim como os demais que tenho escrito sobre o tema, termine sumariamente ignorado ou desqualificado como criancice. Eu só não quero viver para ver os velhos, e novos, companheiros de batalha do Software Livre, em uma fila do lançamento do “Google Home”, gritando em uníssono: Yes, we fan!, Yes, we fan!, Yes, we fan!

Saudações Livres
@anahuac