o GNU foi pro brejo

Neste setembro de 2019 o Software Livre recebeu sua última pá de cal no Brasil: não há mais Latinoware. É bem verdade que esse evento já não tinha mais compromisso real com a defesa da liberdade do software ou com os princípios da filosofia do Software Livre, mas foi, durante sua primeira década um expoente do movimento, junto com o FISL.

Seus organizadores sofrem de OSISmo crônico. Lutaram arduamente para difundir os ideais do Open Source, fragilizando a essência da comunidade de colaboração, que é fortalecer o indivíduo através da cooperação desinteressada, através da humanidade e da fraternidade de ajuda ao próximo sem maiores interesses ou visando ganhos pessoais. Decidiram dar voz e razão ao pensamento mercantilista, onde o acesso ao código deve servir ao mercado. Esse Deus mercado que corrompe, degrada e se alimenta de seus defensores. É suicídio para qualquer movimento social se mercantilizar e o Software Livre permitiu isso.

Os líderes da Latinoware foram sofrendo essa metamorfose feia e degradante que só grandes doses de fascismo são capazes de gerar: ao mesmo tempo em que enganavam as pessoas chamando seu evento de “tecnologias abertas” decidiram aderir ao golpismo, ao anti-petismo e até mesmo ao bolsonarismo. Durante os anos de governos do PT a Itaipú Binacional hospedou e financiou o evento, em nome da democratização do conhecimento e da colaboração entre os países vizinhos.

Bastaram alguns meses de governo Bolsonaro para que o apoio ao Latinoware fosse encerrado. Que puxada de tapete, meus amigos!

Os organizadores do FISL também pecaram ao se negar a escolher um lado. Decidiram, via ASL – Associação do Software Livre, que deveriam representar os dois: fascistas e não fascistas. Como se fosse possível representar dois grupos, onde o objetivo de um deles é exterminar o outro. Como diria o sábio Robin, santa inocência Batman!

Em 2012 depois da reação permissiva da comunidade Software Livre à distribuição de um spyware no Ubuntu, vaticinei que o movimento havia morrido. Ele tinha morrido mesmo, mas tinha se esquecido de deitar. Andou cambaleante como um zumbi, até agora. Finalmente foi enterrado.

“Movimento social e político em defesa da liberdade do software, visando proteger os usuários, garantir sua perpetuação e permitir a distribuição irrestrita de conhecimento”. Eis a definição de Movimento Software Livre. Mas como fazer isso sem comunidades, sem lideranças, sem eventos e sem participação real fora da Internet?

A sequência dos fatos que nos mataram:

  • Fortalecimento das redes sociais privadas;
  • Perfilamento e influencia sobre as ações do movimento;
  • Fortalecimento do pensamento mercadológico – OSI
  • Cooptação dos líderes do movimento
  • Enfraquecimento exponencial das comunidades
  • Distribuição de software não livres nas distribuições GNU
  • Normalização das ações aéticas da mercantilização
  • Substituição do termo Software Livre por Open Source, Código Aberto ou Tecnologias Abertas
  • Esvaziamento das ações comunitárias: install fest, aulas gratuitas, documentação, tradução e mutirões
  • Sobreposição do termo Linux ao termo GNU
  • Falência dos eventos menores
  • Falência dos eventos maiores

E como se tudo isso não fosse os evidentes ingredientes para a crônica de uma morte anunciada, as vítimas festejam seu fim, esbanjando agressividade contra os movimentos que resistem, contra os governos que os apoiaram, contra o criador do movimento, contra às comunidades filosóficas e desprezando os colaboradores que não fazem código. Uma empáfia digna dos capitães do mato, dos agente da SS ou dos PM à serviço do Ustra.

Tudo isso sob o argumento de que é preciso evoluir. Que são novos tempos. Que os princípios do Software Livre, com mais de 30 anos, caducaram e não se encaixam mais na sociedade moderna. Como se a fraternidade, a preservação dos direitos do próximo, o não mentir, enfrentar os poderosos interesses de dominação, colaborar e distribuir, não fossem conceitos imunes ao tempo, a vilania e ao fascismo.

Ainda agora estarão comemorando a aproximação da Microsoft, Google, Facebook, Amazon e Apple ao open source. Pois que comemorem também o fim do FISL, o fim da Latinoware e o extermínio do próprio Software Livre.

Mas sempre haverá esperança. Eu quero um mundo sem Open Source, sem mega corporações, sem Bolsonaros. E esse mundo só é possível se os resistentes marcarem este momento como o divisor, como a gota d’água, como o ponto sem volta. Não há contemporização possível, convivência possível, aceitação possível.

Fomos encurralados e abatidos como cerdos mansos.

O GNU foi pro brejo!

Mas ainda vamos resistir um pouco mais em @ultraGNU no Telegram.