Geração Ubuntu: a morte do movimento Software Livre no Brasil

Esta é uma constatação dolorida, triste, daquelas que deixam marcas na alma, como toda morte: o movimento Software Livre morreu. Ao menos no Brasil. Não me entenda mal, estou me referindo ao movimento, não há mais movimento, não há mais ativismo organizado. Alguns “quixotes” continuam na sua ébria redoma de purismo atacando os moinhos de vento, nada mais.

Em meados da primeira década do século XXI, a FSF e uma série de visionários vislumbraram um futuro onde o Ubuntu se popularizava de tal forma que muitos usariam GNU/Linux sem nem mesmo saber o que era isso. Alertaram a todos sobre os riscos da quantidade e disseminação desqualificada, ou seja, muito Linux e pouco GNU, muito uso e pouco entendimento, muito código e pouca filosofia, muito compartilhamento e pouca liberdade: o triunfo do Open Source sobre o Free Software.

Uma década se passou e eles, para variar, estavam certos. O poder corruptor do mercado suavizou o discurso progressista, arrefeceu os corações dos mais apaixonados e tornou em inertes complacentes até os radicais livres!

O movimento Software Livre no Brasil não conseguiu criar uma nova geração de visionários filósofos do conhecimento livre. Tachados de “xiitas”, intransigentes, ditadores da liberdade, agressivos, impacientes, comunistas, socialistas e extremistas, foram convidados todos, sistematicamente, a se retirar da sala com seu inconveniente elefante branco chamado liberdade.

Periódicos, entrevistas, blogs especializados ou não se revezaram, sem tréguas, a deixar claro que Linux era uma excelente escolha de mercado, mas o GNU, a GPL, a FSF e quaisquer que insistissem em empurrar a linha além do campo técnico, estava sendo inconveniente, indesejado, chato.

Uma nova geração de fantásticos desenvolvedores surgiu, foi educada e encontrou seu lar nos moldes do Bazar, nas metodologias emaranhadas de desenvolvimento, usando Ubuntu, e as “revolucionárias” redes sociais. A nuvem fez o resto. A massificação do acesso às mídias de massa através de redes privadas como o Facebook conquistou os corações e mentes dos últimos bastiões da já velha filosofia libertária. Sem novos cavaleiros, a távola não precisa mais ser redonda. Na verdade, a távola, não precisa sequer existir.

O movimento foi transformado em uma comunidade. Somos um grupo de pessoas distintas, com ideias e objetivos distintos, dispostos a ser complacentes com os menos esclarecidos e especialmente com os mais esclarecidos. Hoje parece não haver mais nenhuma incompatibilidade em ser ferrenho defensor do Software Livre e usuário de tecnologias absolutamente proprietárias como iPhone, iPad ou até mesmo Windows. Viramos apenas “os caras do Linux”. Não somos mais ameaça nenhuma.

Enfurnados às centenas nas redes sociais privadas, compartilhando nossas ideias e conhecimentos no Facebook, Skype e Gmail, parece não haver mais nenhum constrangimento em ser defensor da privacidade e da democratização do conhecimento tecnológico. Somos contra todo tipo de opressão, até mesmo aquela que aponte nossa absoluta incoerência e complacência com aqueles governos e empresas que deveríamos combater.

As fileiras de hackers que iam mudar o mundo, mudaram seus endereços de e-mail para gmail.com, esvaziaram as listas de discussão livres e abarrotam curtidas no Facebook. Quanto orgulho! quanta alegria! Finalmente somos apenas mais um dos subgrupos de anormais digitais, assim como tantos outros. Nem mais, nem menos que os gamers, web designers ou dba’s. Somos os “linuxers”.

Projetos de softwares continuarão a ser desenvolvidos de forma colaborativa, sem dúvida. Os grupos de usuários continuarão a se encontrar e os eventos continuarão a disseminar, mas será apenas a forma, sem conteúdo, sem alma, sem gana.

Deveríamos ter mais GNU e menos Linux, mais Zimbra e menos Gmail, mais Duckduckgo e menos Google, mais Diáspora e menos Facebook. Nós íamos mudar o Mundo, mas foi ele quem nos mudou. Sejam todos bem-vindos à Comunidade Software Livre! O movimento está parado no Face, usando Gmail, à bordo do novo Ubuntu e gritando: me deixem em paz!

Anahuac
08/02/2014