PIPA – com Paulino

Esta última semana foi cheia de boas surpresas. Através de um contato inusitado terminamos visitando Pipa no Rio Grande do Norte, onde um arquiteto maluco, com cara de Daniel Azulay – as pessoas com 30 anos ou mais se lembram da Turma do Daniel Azulay – chamado Maurício, esta fazendo um trabalho épico.

 

Apesa de arquiteto ele esta metido em Pipa viabilizando um Telecentro na Escola Municipal Vicência Castelo. Maurício foi “enviado” para Pipa pelo Projeto Cidade do Conhecimento, da USP, e é simplesmente assombroso o que encontramos lá: 2 computadores MMX de 150 Mhz com 32 Mb de memória RAM que através de ssh acessavam um servidor Debian enviado pelo GESAC para acesso a Internet. Sim amigos, os alunos se dividem em apenas 2 computadores e ainda tinham que usar ssh para abrir o Firefox do servidor e então poder navegar.

O mais impressionante foi ver a alegria e a participação dos alunos, sem se queixar da estrutura oferecida. Como dá para ver nas fotos os computadores estão em cima de uma “bancada” ligados em um “gato” que foi providenciado em caráter emergencial para que o servidor e as duas estações possam ser usadas.

Eles tem mais 4 computadores que não podem ser ligados por falta de infra estrutura elétrica e mesmo assim é uma alegria só ver todos usando a Internet para realizar seus trabalhos.

Fico me perguntando se é assim em outros lugares? É essa a infra-estrutura que o governo está oferecendo para realizar a Inclusão Digital?

Tudo bem que os computadores sejam usados, que a sala não seja climatizada, mas os ingredientes que vi em Pipa seriam a melhor receita para uma catástrofe se não fosse pelo caráter conciliador de Maurício.

Catástrofe em Telecentro

Ingredientes:

4 – Cadeiras de classe
1 – Porta deitada servindo de bancada
2 -Computadores velhíssimos
Conexões ssh à gosto
1 – Servidor Pentium III
1 – Arquiteto como chefe de suporte e professor de informática
200 Alunos da rede pública querendo acesso e qualidade

Modo de preparo

Misture tudo até alguém não aguentar mais. Quando sentir que a massa crítica esta prestes a se revoltar, demita o Arquiteto. Espere por alguns dias e esta pronto. Adeus telecentro. Adeus inclusão digital.

Teria sido assim se não fosse pela dedicação de Maurício e a natureza amigável dos alunos.

Não há dúvida: Maurício conseguiu revolucionar a vida dos nativos de Pipa com apenas 3 computadores e muita força de vontade. Basta lembrar que ele não é um profissional de TI, mas isso não o deteve. Meteu a cara nos livros, aprendeu a mexer e configurar o GNU/Linux, fez instalações bárbaras em suas “estações de trabalho” e fez a coisa funcionar.

Numa tentativa bem intencionada decidi instalar o LTSP em seu servidor para facilitar sua gestão e oferecer uma interface mais amigável aos alunos. Depois de algumas horas de trabalho o LTSP estava rodando lindamente e como sempre ele espanta pela velocidade e flexibilidade.

Saímos do Telecentro as 00:30 felizes por ter realizado um bom trabalho e por ter tido a oportunidade de colaborar com o trabalho de Maurício. Na agenda do dia seguinte tinhamos agendado uma visita a uma outra praia próxima de Pipa chamada Sibaúma onde Mauricio ensaia os primeiros passos para a instalação de outro Telecentro.

Dia seguinte

Antes de ir para Sibaúma passamos no Telecentro mais uma vez para ver como iam as coisas. Lá fomos apresentados a Dona Norma Lilian, dona da linda Pousada Landuá e responsável local pela instalação do Telecento. Enquanto faziamos uma demonstração do LTSP para ela houve uma queda de luz e os computadores reiniciaram normalmente. É importante lembrar que o servidor também é usado como estação de trabalho devido ao baixo número de computadores disponíveis..

Quando a luz volta e as máquinas são reiniciadas havia uma garota usando o servidor e não percebeu que o Servidor foi inicializado mas tinha dado boot pelo CD-ROM que tinha um CD de instalação do Debian dentro. Acreditando que tudo estava em ordem ela deu enters consecutivos nas perguntas de instalação do Debian e formatou o HD do Servidor. SIM!!!!! foi tudo pro espaço.

Numa rápida avaliação da situação convidei Maurício para no dia seguinte vir até João Pessoa onde arrumaria tudo de novo.

Com a situação parcialmente sob controle rumamos para Sibaúma. Que lugar fantástico. Fomos de carro entre Pipa e Sibaúma pelas falésias, um caminho bastante acidentado que exigiu que todos os tripulantes ( Paulino, Maurício e Dona Norma) descessem do carro por duas vezes para evitar que o carro ficasse “atolado” na areia.

A paiságem é paradisíaca, tanto pelas dunas do lado direito como pelas maravilhosas praias no caminho. Depois de várias paradas para fotos chegamos a um lindo restaurante na beira do mar onde nos acomodamos.

Infelizmente tomei caipirinhas demais no restaurante e o resto da tarde e noite serviram para me recobrar do excesso. 🙁

No dia seguinte rumamos para João Pessoa onde finalizamos as configurações do servidor e que deverá alegrar muito os alunos da Escola Vicência Castelo e a todos os membros da comunidade de Pipa. Esperamos que nossa visita tenha servido ao propósito de motrar que eles não estão sós e que o conselho gestor do projeto de inclusão digital decida fornecer um mínimo de infra-estrutura para que o Telecentro seja de fato uma ferramenta de inclusão digital.

Anahuac

22/07/2004