Visto para USA

Como prometi aqui vou fazendo os relatos do que foi acontecendo no processo de ida à LinuxWorld em São Francisco.

Para poder viajar aos Estados Unidos da América do Norte é preciso ter autorização prévia. Diferente de todos os países que visitei onde se preenche uma ficha no avião, antes de aterrizar, e simplesmente passar pelo Serviço de Migração.

Assim vou contar como foi meu processo de autorização e o que você pode esperar dele. Imagino que o processo é o mesmo em todo o Brasil e muito provavelmente em todo o mundo.

O processo consiste em uma entrevista com um Cônsul dos EUA que irá decidir se você é ou não “confiável”. O termo confiável esta entra aspas, porque eles querem ter certeza de que você nunca teve contato com drogas, prostituição, armas de fogo, terrorismo ou sequestro de crianças. Parece ridículo, mas assim é a burocracia: no formulário de solicitação do Visto Norte Americano eles fazem perguntas explicitas sobre o seu envolvimento com qualquer uma dessas ações. Adoraria saber se algum louco ou mesmo uma prostituta profissional ja respondeu que SIM no questionário 🙂

É necessário gastar cerca de R$ 400,00 somente para poder marcar a entrevista, ou seja, não há nenhuma garantia de que você receberá o visto.

Minha entrevista foi marcada para o dia 29 de julho na embaixada americana no Recife. Ainda bem que moro bem próximo de Recife, porque essa é a única em todo o Nordeste. Sim amigos, todas as pessoas tem que se deslocar para la se desejarem pisar em solo norte americano.

Aqui vão alguns conselhos importantes:

1 – Procure uma agência de viagens para fazer uma capacitação em “como se comportar na hora da entrevista”. É impressionante isso, mas dicas de como se vestir, como falar, quais documentos levar consigo e especialmente o que não dizer, serão decisivos;

2 – Apesar das entrevistas terem hora marcada, chegue cedo. Na verdade se puder acampar na frente do consulado de um dia para o outro faça isso. A hora determinada não significa nada.

3 – Se desconfiar que vai chover leve um guarda-chuva. A espera pode ser longa e somente entram pessoas a medida que as que estão dentro são liberadas.

Eu cheguei no consulado as 06:20 da manhã e ainda assim fiquei em quinto lugar na fila.
Começaram a deixar entrar por volta das 08:45 da manhã. Até lá muito bate papo na fila e alguma leitura. Sim eu levei duas revistas prevendo a demora.

Logo na entrada você percebe que esta entrando em Território Americano: Raio-x para a bagagem ( seja bolsa de mulher, seja pasta, seja o que for) e detector de metal , igual que nos aeroportos. Alguns itens são terminantemente proibidos, como isqueiros, pinças, tesouras, facas, revólveres e especialmente granadas de mão :-).

Se puder leve um amigo ou parente, ou vá prevenido: os ítens proíbidos não entram e eles não guardam o ítem para você pegar na saída.

Quando entrei eles identificaram que eu tinha um isqueiro na pasta ( lógico, eu sou fumante ), me pediram gentilmente para deixa-lo do lado de fora. Ups. Eu estava sozinho! E agora? Jogar na rua um isqueiro Zippo que me foi presenteado pelo Paulino em Montevideo? Nem pensar. Jeitinho Brasileiro: abri a porta e pedi para um desconhecido guardar ele para mim. Em troca ele me deu um cartão de visita e no caso de nos desencontrarmos eu teria que ligar e ir ao seu encontro para reaver o isqueiro.
Celulares podem entrar mas tem que permanecer desligados.

Recebi uma ficha de fila com o número 474 e entrei. Na primeira ante-sala ha uma séria de cadeiras onde todos devem sentar e aguardar serem chamados pelo número da ficha. Como percebi que ia demorar um pouco recostei a cabeça na parede e tirei um cochilo 🙂
Derrepente aparece um guarda em um impecável uniforme azul e canta um número…. eu estava acordando para prestar atenção, pis como era o quinto da fila estava certo de que não seria o meu número. Estava enganado. -“Ficha 474” repetiu o guarda pela terceira vez e eu me levantei meio “grog” do cochilo e fui até o local da entrevista.

Neste momento fiquei realmente surpreso. O local da entrevista esta composto por 5 cabines, como as de telefone público, separados por uma pequena divisória. Nada de sala privada, nada de cadeira. Me senti como um novilho, pronto para ser abatido.

O entrevistado ( eu ) fica separado do entrevistador ( o Cônsul ) por um vidro de 5 polegadas de espessura a prova de tiros ( pelo menos era isso o que o adesivo no canto esquerdo inferior dizia ) e a comunicação é feita através de microfones, como nas bilheterias dos cinemas.

No balcão do lado esquero tinha um pequeno scanner de dedo. Sua finção é clara: registras as digitais digitalmente para serem comparadas na hora da entrada pelo serviço de migração norte americano.

Amigos, podem ter certeza que o sistema é realmente humilhante. Não acho outro adjetivo para expressar. Você tem que pagar para ser entrevistado e depois te tratam como se você já fosse um provável criminoso, uma pessoa perigosa que precisa ser mantida do lado de fora por um vidro à prova de balas.

Entre raiva e nervosismo senti o coração pulsando no pescoço.

Nervosismo porque estava me perguntando: porque fui o primeiro a ser chamado? Se pela ordem eu seria o quinto?

A entrevista

O Cônsul me deu bom dia e ….
CUSA – “Vamos começar tirando suas digitais.”
Meus dois dedos indicadores foram escaneados.
CUSA -“Você é mexicano?”
EU -“Sim.”
CUSA -“Você é brasileiro?”
EU -“Sim.”
CUSA -“Ora, você é mexicano ou você é brasileiro?”
EU -“Sou os dois, tenho dupla nacionalidade.”
CUSA -“Você trouxe seu passaporte mexicano?”
Abri minha pasta e entreguei pela gaveta blindada que tem sob o vidro.
Ele analisou o passaporte que foi emitido em 75 quando eu era uma criança e prosseguiu:
CUSA -“Você morou no México até os 6 anos de idade?”
Ora o passaporte deixava claro que não, mas…
EU -“Não. Vivi no México até os 3 anos de idade de onde me mudei para a Suécia e depois em 1979 vim para o Brasil.”
CUSA -“É bom você guaradr este passaporte porque a foto ja não parece mais contigo.”
Claro! Pensei… a foto foi tirada quando eu tinha 3 anos.
CUSA -“Porque você quer ir aos USA?”
EU -“Fui convidado para dar uma palestra.”
CUSA -“Nome da cidade e nome do evento?”
EU -“San Francisco, LinuxWorld.”
Ele mexe em um teclado de um computador que estava fora do meu campo de visão.
CUSA -“O que você faz?”
EU -“Sou consultor de TI em Software Livre… Software Livre são programas cujo…”
CUSA -“Eu “entender” Free Software. Onde você trabalha?”
EU -“Trabalho atualmente para o Ministério do Desenvolvimento Agrário em Brasília e atendo uma série de clientes menores em João Pessoa.”
CUSA -“Mas você mora em João Pessoa e trabalha em Brasília?”
EU -“Sim, presto serviços pela Internet.”
Enquanto as perguntas tinham respostas de peso fui me tranquilizando.
CUSA -“Não entendo o que você faz. Explique.”
EU -“Faço todo o planejamento de infra-estrutura de rede, incluindo os servidores e suas configurações… tudo baseado em Software Livre. Além disso mantenho alguns projetos livres de gestão de servidores.”
CUSA -“Entendo. Comprovante de renda?”
EU -“Trouxe um extrato bancário, uma vez que os clientes pagam depositando diretamente na conta.”
CUSA -“Deixa eu ver?”
Passei um exstrato que tinha tirado num caixa eletrônico na tarde do dia enterior.
Ele analizou o extrato por alguns segundos e ainda com ele na mão, prosseguiu…
CUSA – “Casado ou solteiro?”
EU -“Solteiro. Oficialmente noivo a menos de 15 dias.”
CUSA -“Vive com os pais ou sozinho?”
EU -“Sozinho.”
CUSA -“Casa própria?”
EU -“Não. Alugada.”
CUSA -“A quanto tempo?”
EU -“A onze meses.”
Estava certo de que todas as resposas eram negativas, ou seja, não davam qualquer segurança ou indicativo de ter raízes fortes no Brasil.
CUSA -“Porque você não vai trabalhar nos Estados Unidos? Free Software é muito forte por la. Não aqui.”
Tirei o convite para LinuxWorld da pasta e passei para ele ler, enquanto explicava.
EU -“Se me convidaram para participar do evento é porque tenho algo que lhes interessa, a dizer.
Exatamente porque o Software Livre é forte nos Estados Unidos e fraco por aqui é que acredito ajudar muito mais o povo brasileiro e o governo brasileiro se eu ficar trabalhando aqui e dizendo o que tenho a dizer para as pessoas daqui.”
CUSA -“Ok. Vou te dar o visto.”

*CUSA – Cônsul dos USA

Na hora tive que pagar mais $60 ( sessenta dólares americanos ) pelo visto. Logo percebi que os R$ 400,00 que tinha pago antes eram exclusivamente para ser entrevistado .

Duas horas voltei ao Consulado para pegar meu passaporte com o visto.

Conclusões

Vá preparado para se sentir um “nada”;
Tenha a documentação em ordem;
Tenha um bom extrato bancário. No mínimo condizente com o que você declarar;
Seja rápido e exato nas repostas;
Mostre um pouco de arrogância, afinal de contas os Estados Unidos não são necessáriamente a nona maravilha do mundo.

Saudações Livres,

Anahuac