Contra Ativismo

A organização civil que busca o contraponto aos desvios de conduta dos sistemas de exploração sempre existiu: sindicatos, associações, cooperativas e ONG, por exemplo. São fruto da percepção aguçada de alguns destaques, de mentes brilhantes e de espírito combativo. É provável que essas organizações sejam a tênue linha divisória que nos separa da selvageria do modelo de exploração pelo capital, como ocorreu, por exemplo no primeiro período da dita “revolução industrial”.

Os ativistas sociais trazem em si o sentimento crítico, a capacidade de perceber os meandros obscuros nas propostas dos podres poderes e uma disposição nata para combater as injustiças. Tomemos como exemplo os salvadores de baleias “Sea Shepard”, que arriscam suas vidas em missões de combate à pesca de consumo, disfarçada de pesquisa científica, promovida pelo governo do Japão, no Mar Antártico.

É óbvio que combater o “status quo”, seu marketing, os interesses, as lei de interesse restrito e a mídia vendida, que juntos atuam em equipe para sobrepor seu deturpado “way of life” exige um esforço e tenacidade que beiram o extremismo religioso. Por isso mesmo, não é raro serem eles taxados de Xiitas, extremistas, radicais, intransigentes, etc. Lembro bem da pecha de “eco-chatos” dados aos ambientalistas mais radicais.

Essa obstinação, pode levar a certos desvios de conduta, que para qualquer pessoa comum, seriam impensáveis. Tomar banho com meio balde de água fria, não comer nenhuma comida de origem animal, não vestir nenhuma pele ou não usar nenhum software proprietário. E para esses seres acima da média, não há exceções aceitáveis. Sua percepção da realidade entende o erro e não pretende dar-lhe margem para ser exercitado. Estou me referindo aos vanguardistas que preferem se vestir com um saco de batatas usado, feito do mais bruto algodão, do que vestir um casaco de couro. Há aqueles que preferem não ouvir a voz da mãe do que utilizar um programa privativo de voz on-line.

O esforço necessário para propagar seus ideias é tamanho que alguns desvios terminam parecendo necessários, aceitáveis ou até mesmo positivos. Quem sabe degolar uma dúzia de vacas em praça pública? Certamente chamaria a atenção da mídia para o maltrato dos animais. Quem sabe construir algumas bombas atômicas e desafiar a ONU? Bom, isso o ex presidente Bush já fez, e acreditem, ganhou um Nobel da Paz. O problema está na falta de coerência entre o meio e forma escolhidos para chegar a maior quantidade de pessoas possível e a causa defendida.

Richard Stallman sempre deixou claro que não importa a quantidade de usuários de GNU/Linux, mas a quantidade de pessoas que, realmente, entendem a filosofia social e política dos Software Livre. Então, enquanto a FSF e seus ativistas trabalharam muito para conscientizar e tratar sobre os temas relativos à liberdade, um outro grupo trabalhou com foco na adoção e uso dos Softwares Livres. O argumento de que era necessário criar um volume grande de usuários para, então, promover a consciência libertária faz sentido, mas está essencialmente equivocado. Não adianta criar uma massa de usuários que ignoram a importância dos que estão usando. Essas pessoas estarão sempre, a mercê do mercado, pois não estão cientes da importância de sua liberdade tecnológica. O melhor exemplo disso é a popularização do Android, que é um sistema operacional livre, mas que não tem ajudado a conscientizar as pessoas. Não é estranho ver usuários incautos de Android, comparando seus equipamentos com o iPhone ou iPad, sem nunca tocar no quesito liberdade.

Esse mesmo desvio de conduta faz com que ativistas, de todas as vertentes, acreditem ser aceitável abrir mão de sua privacidade e segurança, utilizando softwares privativos e redes sociais devassas. Traduzindo: Windows e Facebook, por exemplo. O argumento é que esse é um mal necessário para permitir que a maior quantidade possível de pessoas tenham acesso a sua mensagem. Mas esse é o um argumento falho por sua contradição, tanto quanto tocar fogo em um zoológico lotado de animais, para provar a crueldade de manter os bichos presos.

Então vamos tentar entender alguns desses erros de percepção:

1) Não me importo com o monitoramento ativo das redes sociais, os dados relativos ao meu ativismo pois essas informações são públicas e, portanto, não há nenhum problema se a CIA, FBI ou qualquer outra agência me monitorar.

2) Usar Windows e Skype é o que me permite manter contato com os demais ativistas e entidades. Se quiser fazê-lo tenho que usar ferramentas que são amplamente aceitas no mercado. E mais uma vez, não importa o monitoramento e gravação das conversas.

3) A minha preocupação não é com a ferramenta que uso mas com o resultado obtido. Essa preocupação com o uso de softwares livres e redes sociais devassas é infantil e inútil.

Esses argumentos revelam graves desvios de conduta, especialmente quando utilizados por ativistas sociais. O monitoramento ativo promovido pelas agências de inteligência, tem e terá efeitos devastadores no controle social e mercadológico. O custo de adquirir e manter atualizado o comportamento e ações de bilhões é absolutamente inviável, exceto se as pessoas o fizerem de forma proativa e gratuita. A maior ameaça é a capacidade de definir tendências de comportamento social, antecipando ações do povo, avaliando a aceitação de produtos e ou políticas intervencionistas. Ficção? Lembra da ocupação da praça Tahir no Cairo? A CIA a previu com três meses de antecedência. Permitir que os combatidos sejam capazes de ler, ver e ouvir, toda a sua comunicação e se antecipem às suas atividades e ações, é pouco inteligente e até mesmo perigoso.

Os fins justificam os meios, já dizia Maquiavel. Qualquer ativista sério dirá que essa não é uma política aceitável, como já exemplifique à exaustão, os meios importam e muito. A incoerência em si é um erro crasso, mas as implicações destas são nefastas pois se supõe que o ativista visa mudar o “status quo” e não ajudar a perpetuá-lo. Mas usando os softwares privativos e redes sociais devassas, qual é a mensagem que se está passando? Vanguardista, inovador, questionador? Ou conservador, convivente, inoperante?

Finalmente vem a desqualificação. É uma reação natural para os que querem impor sua forma de ver o mundo. Trata-se de minimizar a importância dos argumentos para justificar a perpetuação do erro. É, no mínimo, triste ver ativistas utilizando esse meio pernicioso, típico dos podres poderes, quando defendem suas ações. Basta lembrar de todos os meios de desqualificação promovidos pela Microsoft em relação ao software livre. Os defensores e membros do movimento foram taxados de “cabeludos irresponsáveis” – eles não conheciam o “cabelo” – imaturos, amadores, feios e muito mais. Ao perceber que não havia como evitar o avanço do Software Livre, decidiram separar, de forma sistemática, o técnico do filosófico. Transformam GNU/Linux em Linux.

Quando o ativismo usa meios errados para atingir o seu fim, ele não vale a pena. Trata-se de um tipo pernicioso de ativismo, porque leva à cegueira os convertidos desse ativismo. Esses convertidos não perceberão a incoerência, mas apenas, o “motivo maior” e estarão condenados a continuar errando e com isso alimentam esse erro.

Não se pode combater a corrupção, corrompendo. Não se pode combater a fome, deixando comida no prato a cada refeição. Não se pode defender os animais usando peles. Não se pode defender a privacidade, usando redes sociais devassas.

Não há ativismo sério usando Software Privativo. E agora não há mais a desculpa de que você não sabe disso.

Quando um ativista usa a desculpa do “temos que estar onde todos estão”, ele continua sendo um ativista? Ou foi convertido?

Saudações Livres
@anahuacpg