Do OSIsmo ao OSIsta

OSIsmo é a prática da filosofia Open Source. Ela é institucionalizada pela OSI e tem o objetivo de exterminar o Software Livre para substituí-lo pelo Open Source.

O OSIsta é um ser triste e magoado. Invariavelmente é um ex-ativista do Software Livre que não acredita mais na causa. Ele vive um o conflito filosófico constante de querer ser um ativista do Software Livre sem acreditar mais naquilo que isso representa. Assim ele se esforça muito para moldar ou distorcer a filosofia da liberdade do software para se encaixar em suas novas convicções.

Seu passado de ativismo no Movimento Software Livre lhe dá conhecimento de causa, ou seja, ele conhece com precisão a filosofia e todos seus aspectos técnicos, legais e ideológicos.

Lentamente ele cede ao argumento de que é mais importante massificar o uso de Software Livre do que se manter alinhado à filosofia. Assim ele aceita a inserção de software não livre no kernel e nas distribuições GNU. O mesmo argumento é usado para justificar a mudança no nome do sistema operacional: Linux é mais fácil e bonito do que GNU, portanto mais gente vai aderir.

É claro que é um processo de desapego moral. Até pouco tempo ele era um intransigente defensor das liberdades do usuário e qualquer ameaça seria combatida frontalmente com vigor. Ao aceitar o argumento do OSIsmo há uma ruptura interna que se justifica pelo bem maior, ou seja, cede-se um pouco na rigidez da filosofia para poder colocar em prática uma ação que trará muitos benefícios futuros à causa. É o tal “mal necessário”.

Gradativamente o apego às diretrizes filosóficas do Movimento Software Livre vai enfraquecendo. Quando as grandes empresas começam a usar massivamente software Open Source, então ele passa a ter certeza de que o argumento original estava correto. Trata-se da materialização do custo moral de ter aceito um pouco de software não livre em benefício do movimento e da disseminação do Software Livre.

O erro de avaliação é que o objetivo primário do Software Livre nunca foi tornar-se massivo, atender as empresas, gerar negócios ou ser um modelo de produtividade. Seu objetivo é conscientizar as pessoas sobre a importância da sua liberdade tecnológica. Qualquer outra conquista será consequência direta dessa consciência adquirida.

O OSIsta sabe perfeitamente de tudo isso, mas ele cedeu. Agora está convencido de que esse um caminho sem volta. O mercado atendido pelo OSIsmo é a nova ordem: é evidente que se as gigantes da tecnologia adotam e usam Open Source então isso tem que estar certo. O Open Source é a evolução natural do Software Livre. Mais usuários, mais negócios, mais investimentos… isso só pode estar certo!

Como ativista ele não deixa de agir, só que agora sob uma nova ótica: como organizador do FLISOL e/ou SFD ele não tem mais nenhum pudor em instalar distribuições não livres; ele redige artigos mostrando as vantagens do uso de Linux pelas empresas ao ponto de comemorar a campanha “Microsoft ama o Linux”; ele defende a liberdade do Linus em embutir software não livre no kernel; ele convoca todos a usarem as redes sociais não livres para poder atingir a maior quantidade possível de gente; ele usa o Android como exemplo de sucesso da massificação do uso de software livre; ele passa a ter mais apreço pelo lado técnico do software; ele passa a valorizar mais o desenvolvimento do software do que todas as demais colaborações, assim vale mais codificar do que traduzir, documentar, distribuir, organizar eventos e divulgar. Trata-se de um autêntico ativismo Open Source.

Cada vez mais convencido de que tem razão, as palestras e textos do Stallman começam a fazer menos sentido. RMS soa deselegante, rude e radical. “Será que o Stallman não percebe que esse discurso está superado? Será que ele não consegue ver o sucesso que estamos alcançando? Só tivemos que ceder um pouco para conquistar tanto!” pensa ele.

E quanto menos Stallman reconhece esses avanços, e quanto mais lhe é mostrado que esses avanços não são benéficos para o Movimento Software Livre, mais frustrado o OSIsta fica. “Como assim meu esforço para ceder só um pouco, em benefício do bem maior, não é reconhecido e entendido como sendo positivo para o Software Livre? Eu fui tão cuidadoso, que apesar das diferenças filosóficas, continuei chamando tudo de Software Livre, exatamente para beneficiar o movimento.”

As criticas ao seu novo posicionamento surgem naturalmente daqueles ativistas que se mantém alinhados com a filosofia do Software Livre. Sua frustração não lhe permite reconhecer que está errado e sua resposta é agressiva e virulenta. Sempre na defensiva, o ataque “ad hominem” é sua estratégia mais comum. “radicais, velhos, comunistas, destruidores de comunidade!, impositores, ditadores” costumam ser seus argumentos mais comuns para tentar desqualificar seus opositores. A tentativa é continuar justificando o uso de software não livre como sendo algo bom para o Movimento Software Livre.

Ao travestir seu posicionamento na filosofia do OSIsmo sob o nome da filosofia Software Livre e reagindo de forma violenta a quem lhe faz antagonismo, o OSista de revela em todo seu esplendor: é um fascista.

O mais incrível de tudo é perceber que a maioria dos OSIstas não se identificam como tal. Eles realmente acreditam que ainda são defensores do Software Livre. Continuam enganando as pessoas e fazem questão de não ceder jamais.

É claro que há aqueles que defendem legitimamente o OSIsmo. Esses são apenas ativistas da morte do Software Livre, são facilmente identificáveis e serão confrontados diretamente pelo Movimento Software Livre. Esses não são OSistas, são inocentes úteis a serviço do Deus mercado.

O OSIsta é um ex-militante do Software Livre, convertido à filosofia Open Source, que insiste em dizer que é tudo a mesma coisa para enganar as pessoas e reage de forma extremamente agressiva quando confrontado.

Hora de se olhar no espelho?

Saudações Livres!

O que é OSIsmo?

Osismo é a filosofia cujo objetivo é substituir o termo “Software Livre” pelo termo “Open Source”. Para levar a cabo essa missão foi criada em 1998 a OSI – Open Source Iniciative por Eric Raymond e Bruce Perens. Aderiram, imediatamente, Jon Maddog Hall e Linus Torvalds.

Eric Raymon deixa isso claríssimo em sua carta Goodbye, “free software”; hello, “open source”. Não deixe de ler.

Software Livre era libertário demais, radical demais, revolucionário demais. Tanto que espantava as empresas e seus negócios. Era necessário flexibilizar, amansar, adoçar, relaxar a filosofia.

Perceba que o enfoque é filosófico e jurídico, não técnico. Uma nova organização, com 10 novos princípios, norteiam uma nova filosofia de acesso ao código fonte. Ao mesmo tempo novas licenças de uso são elaboradas para lastrear juridicamente o novo pensamento: são as licenças permissivas, cuja principal característica é permitir que o código seja fechado, ou seja, sem mecanismos que perpetuem a liberdade do software.

Hoje, o pensamento do OSIsmo é quase unanimidade entre os técnicos que trabalham diretamente com tecnologias livres. “Open” é o novo livre e código aberto substitui, quase sempre, o termo Software Livre. O argumento mais comum para isso é que são a mesma coisa, que é tudo igual. Nada poderia ser mais equivocado.

É fundamental entender que o OSIsmo promoveu essa confusão de propósito: primeiro se associando ao ativismo Software Livre, depois criando novos nomes para as mesmas coisas, depois ampliando os conceitos e as licenças e finalmente recebendo o apoio necessário do mercado pelos seus esforços. É assim que o sistema operacional GNU, rebatizado por Stallman de GNU/Linux depois da contribuição de Linus, hoje se chama apenas Linux.

O Movimento Software Livre é um movimento social e político que defende a liberdade do usuário de software através do acesso e da garantia de acesso ao código fonte. Mas ao mesmo tempo, é o próprio software, o código e tem vinculado a ele uma licença de uso. O OSIsmo foi perfeito ao se aproximar tanto desses conceitos que ficou quase impossível distinguí-los.

Separar o joio do trigo não é tarefa simples, mas vamos tentar. O primeiro passo é separar o Software Livre em suas três camadas: técnica, legal e filosófica.

Nível técnico: esse é o software em si. O resultado da codificação, que geralmente é feita de forma colaborativa e compartilhada graças ao acesso ao código.

Nível legal: aqui ficam as licenças de uso. As chamadas Copyleft ou GNU que tem cláusulas de perpetuação (obrigatoriedade) da liberdade do software. As permissivas ou OSI que permitem que o código seja fechado.

Nível filosófico: enquanto o enfoque do Software Livre é fortalecer o usuário através das liberdades do software, tonando-o independente do fornecedor, o Open Source foca na qualidade do desenvolvimento colaborativo como meio de produção otimizada para atender as empresas e o mercado.

Os dois primeiros níveis atendem, perfeitamente, o Software Livre e o Open Source. No nível técnico não restam dúvidas, afinal de contas, código é código. No nível legal, com raríssimas exeções, a compatibilidade é plena.

Considerando apenas esses dois critério é correto afirmar que Software Livre e Open Source são a mesma coisa, que são iguais. E esse é o principal argumento utilizado pelo OSIsmo para gerar a confusão que leva a situação atual. É através da simplicidade técnica e legal que eles conseguiram convencer a maior parte das pessoas de que é tudo a mesma coisa.

E já que é tudo igual, então basta chamar de código aberto e Linux. É mais fácil.

A grande diferença está no terceiro nível. É nele onde reside o antagonismo que causa toda fricção entre os ativistas e essa discussão sem fim: as filosofias são absolutamente excludentes.

O Movimento Software Livre tem o objetivo de fortalecer o usuário e a OSI tem o objetivo de fortalecer as empresas. E como numa gangorra, quando um sobe o outro, inevitavelmente desce. Não há como fortalecer os dois lados dessa moeda, porque seus interesses são antagônicos. Enquanto as empresas querem controlar e escravizar digitalmente seus usuários, estes buscam independência e liberdade.

Acrescente a esse cenário a massiva popularidade dos sistemas na nuvem, onde o software não é distribuido para os clientes, sendo usado para prestar o serviço on-line, o famoso SaaS. Nesse cenário as empresas ficam ainda mais à vontade para usar softwares livres ou de código aberto, modificando-o para suas necessidades sem ter que redistribuir essas mudanças para seus usuários.

O fortalecimento do termo Open Source, a popularização das licenças permissivas, a remoção do GNU do nome do sistema operacional e a marginalização da filosofia do Software Livre, foram o resultado de uma ação lenta, metódica e coordenada. No há qualquer ingenuidade ou boa fé nesse processo, foi algo pensado por Eric Raymond e, levado a cabo, pelos simpatizantes dessa filosofia.

Se sua percepção de um mundo melhor passa pelo fortalecimento das empresas e do mercado, então o OSI foi feito para você. Se, por outro lado, sua percepção for pelo fortalecimento da liberdade do usuário, então mantenha-se alinhado com a filosofia do Software Livre.

Não há nada de errado em escolher um lado e se manter nele. Feio mesmo é saber que existem dois lados, estar convencido de que o Open Source é o caminho correto e enganar as pessoas dizendo que é tudo a mesma coisa.

Saudações Livres!

Android não é Linux

Android não é Linux
Linux é um kernel. O nome do sistema operacional é Android.
Sei que essa discussão é repetitiva e, provavelmente você já ouviu, leu ou até mesmo participou de alguma discussão sobre esse assunto. Mas pense um pouco: se é repetitivo é porque não há consenso. Então me dê uma chance de contar essa história.
O Google criou um sistema operacional livre chamado Android. No início eles não tinham um kernel livre, então usavam um proprietário enquanto se concentraram em todo o resto: sistema de arquivos, shell, editor de texto, compiladores, interface gráfica e muito mais.
Um dia alguém sugeriu o uso do kernel Linux, que permitia ser adaptado para a plataforma de hardware que o Google usava, estava licenciado por GPL e tinha um ótimo desempenho. Os testes foram um sucesso tão grande que eles logo decidiram rebatizar o sistema operacional de Android/Linux. Agradeceram demais ao Linus Torvalds e o mundo todo ficou sabendo.
A medida que o Android/Linux foi se tornando popular a fama de Linus também. Diversos ativistas e usuários entusiasmados começaram a chamar o SO apenas de Linux, porque era mais fácil e bonito. O Google fez campanhas educativas, tentou explicar que não seria correto eliminar o nome Android, afinal de contas eles tinham criado o sistema operacional. Não adiantou nada: os usuários mais fanáticos decidiram. acusaram o Google de interferir na liberdade de escolha do nome e Linus fez um depoimento emocionado onde disse: “As pessoas devem ter a liberdade de chamar o sistema operacional como bem quiserem. Eu chamo de Linux e acho que é absurdo e ridículo que queiram forçar as pessoas a chamá-lo de Android/Linux.”
A Linux Foundation decidiu incorporar softwares não livres ao kernel linux para torná-lo mais compatível com os dispositivos disponíveis. Assim o Linux seria ainda mais popular. Deu certo: o Linux agora é o sistema operacional mais usado no mundo, pois está presente em mas de 86% de todos os smartphones do mundo.
É claro que o Google tentou reagir várias vezes, mas falhou. Foi acusado de xiita, de radical e de anti capitalista. Entretanto o argumento mais emblemático é que o se fosse para chamar o sistema operacional de Android/Linux, então seria muito mais justo chamá-lo de Android/Chrome/Maps/Waze/Hangout/Linux.
O que tinha começado como um projeto de software livre chamado Android, conquistou o planeta conhecido como Linux e contém tanto software privativos que nem é mais software livre.
É claro que o kernel é uma parte vital de um sistema operacional, mas a interface gráfica, o sistema de arquivos, o navegador e o editor de textos também são. O sistema operacional é a soma de todos seus componentes e não apenas o de um ou dois mais importantes.
O mercado gosta de determinados nomes e os usa para identificar objetos, definir conceitos e até mesmo para estigmatizar pessoas. Hacker como sinônimo de criminoso cibernético e Gilette para lâmina de barbear, são alguns exemplos. Seja por pressão financeira, campanhas de marketing ou interesses sócio-políticos, sempre há uma razão por trás disso.
Os criadores originais do Android estão convencidos que remover o nome Android é uma estratégia para remover a importância da liberdade do software da cena. Dizendo apenas Linux e mostrando apenas o pinguim, não se passa o recado da liberdade do software para o mercado.
É claro que você não chama o Android de Linux. É claro que você deve achar essa história um absurdo.
Então saiba que quase tudo que descrevi acima é verdade. E você ajuda a perpetuar o absurdo sempre que se refere a qualquer sistema operacional como Linux.
O nome do sistema operacional livre ou não – Ubuntu, Trisquel, Fedora, Parabola, openSuse, Ututo, Debian – é GNU. Ele foi criado em 1983 por Richard Stallman, que incorporou o kernel Linux em 1992.
Se você acha que as liberdades do software são fundamentais e quer ajudar o Movimento Software Livre de verdade, nunca mais diga que o sistema operacional é linux ou que uma distribuição é linux. É tão absurdo quanto chamar o Android de linux.
Lembre-se: o nome do sistema operacional é GNU.
Saudações Livres!
Me encontre no grupo #ultraGNU do https://riot.im

Open Source não é Software Livre

Open Source’ não é ‘Software Livre’. Confundir ‘open source’ e ‘software livre’ prejudica o software livre. Artigo originalmente publicado em Inglês, na OpenSource.com. Tradução de David Jourdain e publicado na Linux Magazine 25.

Nota do tradutor: Desejo chamar a atenção para o fato que o autor deste artigo é conhecido como um dos grandes defensores do Open Source, perante grandes empresas americanas, e já ministrou palestras pelo mundo, apresentando os benefícios da adoção do Open Source mas, neste artigo, revela que ele mesmo estava errado e que, hoje, defende uma clara distinção entre ‘open source’ e ‘software livre’, para o bem do software livre!

Autor: John Mark Walker – Tradutor: David Jourdain

No universo Open Source, usar termos como FLOSS (Free / Libre e Open Source Software) é comum e representa uma confusão casual dos termos open source e software livre, que são frequentemente usados de forma intercambiável. Eu seria negligente se eu não admitisse também que eu fui culpado de também ter feito isso. Não vou mais fazer – ou, pelo menos, tentarei não fazê-lo – por uma simples razão: usar os termos de forma intercambiável é perigoso para os objetivos do software livre e dos defensores da mídia aberta (leia-se “anti-DRM”). Continuar esta prática é minar crenças que são fundamentais para o software livre e para o movimento associado a estes conceitos.

Software Livre tem a ver com liberdade
O software livre é um movimento social, com apenas uma pitada de interesses empresariais – existe no limiar entre a religião e a filosofia. O software livre é um modo de vida com um código moral forte. O cerne do espírito do software livre é a ideia de que todos devem ser capazes de usar, modificar e compartilhar, com uma limitação definida que você não pode modificar sem compartilhar. Esta é a origem do meme “software livre é um vírus”, que faz com que a licença GNU/GPL (em inglês) pareça especialmente assustadora para algumas pessoas de negócios. Abraçar o software livre é também abraçar a cultura do compartilhamento, que é algo ainda muito distante para a maioria das empresas. O ponto central do software livre era minar a ordem existente dos fornecedores de Unix’s proprietários e impor princípios de compartilhamento. E quando se trata de abraçar essa liberdade, é difícil adotar a cultura e a filosofia do software livre sem reconhecer também a luta incessante por dispositivos desbloqueados, formatos de mídia abertos, neutralidade da rede e segurança de vigilância privada e governamental. Para o resto deste artigo, vou usar “Software Livre” como abreviação para todos esses movimentos.

Open Source é sobre algo inteiramente diferente: eficiência da cadeia de suprimentos
Quando eu escrevi há uma década que Não existe Comunidade Open Source (artigo em inglês), eu fiz a seguinte pergunta: “Por que os desenvolvedores liberam código open source?” Como se vê, existem boas razões para fazê-lo do ponto de vista de operações.

Abraçar o open source é adotar um modelo de desenvolvimento que utiliza uma cadeia descentralizada de suprimentos. Conforme modelo anterior, fornecedores de soluções proprietárias controlariam internamente toda a cadeia de suprimentos de software, e o modelo open source refuta diretamente essa abordagem. O modelo open source é sobre o uso de componentes comuns, de múltiplas origens, para alcançar maior eficiência e agilidade na criação de produtos e serviços, baseados em software.

Inicialmente, os projetos open source usavam muito software sob GPL, devido ao fato de que o projeto GNU foi iniciado cerca de 10 anos antes do primeiro kernel do Linux, e pelo menos 15 anos antes do termo open source ter sido cunhado. Quando o conceito do open source ganhou a imagem “business-friendly”, já havia um rico ecossistema de código GPL, para não mencionar uma cultura bem desenvolvida de compartilhamento.

Que agora exista uma tendência de novos projetos open source migrem para longe das licenças copyleft, do tipo GPL, para licenças “liberais”, do estilo Apache, não deveria ser uma surpresa. Em retrospecto, isso seria inevitável. Em um mundo definido por interesses empresariais e não pela filosofia, o compartilhamento forçado não faz sentido. Claro, alguém poderia argumentar que sim. Afinal, muitas empresas formaram ecossistemas rentáveis em torno de código sob GNU/GPL e Linux. Mas vamos supor que a maioria dos tipos de negócios não concordam com o compartilhamento forçado de cada bit.

No modelo open source do Apache, os desenvolvedores podem optar por liberar ou não suas modificações. Eles costumam fazer, simplesmente porque eles perceberam os benefícios de participar em ecossistemas open source, mas há muitos que às vezes não compartilham. Em um mundo open source, isso simplesmente não importa. Se o ponto de desenvolvimento open source é otimizar a sua cadeia de suprimentos e economias em escala, quem se preocupa com compartilhamento?

Vitória do Open Source
É importante lembrar que na “A Catedral e o Bazar”, Eric S Raymond especificamente chamou o modelo open source como superior, e que foi o início de uma grande divisão cultural: Open Source tem a ver sobre o desenvolvimento de um software melhor, já que “dado olhos suficientes, todos os bugs são banais”; E o software livre era sobre uma existência iluminada através do compartilhamento. O ponto de vista de que o open source era um modelo superior acabou sendo correto, já que o open source tornou-se o modelo preferido para a inovação tecnológica. Os processos de open source poderiam dar aos fornecedores uma vantagem competitiva, se usados adequadamente, e os princípios do open source poderiam permitir que os projetos funcionassem com mais eficiência.

Ironicamente, é esta impressionante vitória do open source – ou, pelo menos, a nossa interpretação – que apresenta uma ameaça real ao software livre. Quando esses termos são usados indistintamente, não há espaço para a nuance ou para a diferenciação. Assim, a vitória do open source se torna uma vitória do software livre, sem a menor questão de saber se isso realmente é o caso.

Mas o software livre realmente ganhou? Vamos considerar uma alternativa, que a vitória para o software livre parece muito diferente do open source. Se uma vitória do open source se assemelha a uma maior eficiência e a mais inovação em ecossistemas open source, como é a aparência de uma vitória do software livre?

Se o software livre “tivesse vencido”?
Se começarmos com a premissa de que o software livre é uma filosofia de compartilhamento e um código moral construído em torno disso, então o que significaria se a filosofia do software livre fosse tão bem-sucedida quanto os princípios do open source? Se eu sou correto que eles são diferentes, então certamente o sucesso desta filosofia e código moral se manifestaria de maneiras diferentes do que vemos agora.

Em um mundo no qual o software livre ganha, as arquiteturas de nuvens bloqueadas são dominantes? A maioria dos dispositivos portáteis seria proprietária e difícil de mudar? Seria difícil usar qualquer serviço em qualquer plataforma? Poderíamos facilmente entregar nossa privacidade às empresas de mídia? Por que, então, em um mundo em que o open source é hiper-bem-sucedido, todos os anteriores são verdadeiros? Se declararmos que o open source ganhou – e eu acredito que é seguro fazê-lo – como poderíamos possivelmente declarar que o software livre também ganhou? É aqui que a confusão de termos é ativamente tóxica. Ao usá-los de forma intercambiável, você está tirando o ar dos pulmões dos defensores do software livre em todos os lugares onde eles querem garantir o compartilhamento na nuvem, a liberdade na web, a igualdade de acesso à tecnologia e a privacidade aprimorada para todos.

Quando os defensores do software livre falam, muitos defensores do open source prefeririam que eles simplesmente se calassem e fossem embora. Eu estava numa conversa há alguns meses em que eu mencionei que precisávamos educar as pessoas sobre os princípios do open source. Erro meu. Veja o quê a confusão dessas duas coisas nos deu? Um executivo de tecnologia respondeu: “Nós realmente precisamos disso?” A impressão entre alguns defensores do open source é que, como o open source, o “mercado livre” cuidará disso, e não precisaremos nos preocupar com esse material filosófico. Assim, não há necessidade de pressionar os governos sobre padrões, privacidade e software livre, porque, caramba, a “mão invisível do mercado” estará nos guiando na direção certa. Com o sucesso do open source devido às tendências do mercado, até o mais leve movimento levaria a cultura tecnológica adiante. Ledo engano.

Além disso, não posso resistir a ressaltar que esse tipo de pensamento mágico é assustadoramente semelhante à teoria de Francis Fukuyama, em 1989, de “O Fim da História e o Último Homem” (nota literária, em português) (The End of History e The Last Man, edição em inglês) de que as sociedades e as nações do mundo estavam se movendo inexoravelmente para mais liberdade e mais democracia. E como, ao fim, isso funcionou para dois terços da população mundial?

O software livre é importante por si só
Nós corremos o risco de perder uma geração inteira para uma cultura de aluguel, não realmente possuir nada digital ou controlar os meios pelos quais podemos interagir com nossos meios de comunicação e dispositivos. Ao não adotar ideais de software livre, corremos o risco de minar o trabalho necessário feito pelos defensores do software livre. Os ideais de software livre requerem uma cultura de modificação e compartilhamento para manter nossos diretores de grandes empresas sob controle, algo que estamos perdendo rapidamente em plataformas modernas de nuvem, web e IoT. Se pudéssemos impor princípios de software livre, francamente, o mundo seria um lugar melhor. Eu não teria que usar uma plataforma específica apenas para que eu pudesse acessar serviços de tecnologia que eu paguei. Os alunos pobres de todo o mundo não enfrentariam mais obstáculos para oportunidades educacionais. As comunidades sub-representadas teriam mais poder para controlar seu próprio destino e criar comunidades de sucesso que poderiam alavancar suas iniciativas, como contraponto ao resto do mundo, que prefere instituir o status quo.

Devemos todos trabalhar para garantir que sejamos detentores das tecnologias em nossos dispositivos, detentores de nossas informações e que possamos defender nossa privacidade. Quem possui a informação que governa nossas vidas, possui os caminhos para nossos pensamentos e os mecanismos para futuros monopólios, algo que tem um impacto econômico real.

Bem, eu acho que eu não poderia ficar longe do argumento econômico. Afinal, ignorar a filosofia do software livre e seus ideais é arriscar a vinda de um futuro terrível, com limites impostos à liberdade de expressão, ao pensamento e, sim, ao comércio.


Autor: John Mark Walker – Diretor de Gerenciamento de Produtos na Dell EMC, além de ser responsável por gerenciar o desenvolvimento do produto conhecido como ViPR Controller, assim como também tem sido mantenedor da CoprHD open source community. Ele tem liderado diversas iniciativas open source, incluindo ManageIQ e Gluster, além de outras iniciativas.

Tradutor: David Jourdain – Membro fundador e moderador das listas em língua portuguesa da TDF. Formação na área de Computação. Por hobby, segue “mexendo” no Kernel Linux. Fluente em alemão, português, espanhol, inglês e retomou seus estudos em italiano. Foi professor universitário, ministrando disciplinas de Engenharia de Software, Engenharia de Sistemas, Construção de Sistemas Operacionais e Arquitetura de Sistemas Operacionais. Palestrante no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai, ensinando sobre Kernel Linux e como organizar grupos de desenvolvedores e pesquisadores, com uso de software livre. Atualmente, também tem se envolvido em pesquisa aplicada para Video Broadcasting, com uso de ferramentas livres.