OSIstas rejeitam a filosofia Software Livre

Tenho denunciado sistematicamente que o Open Source é um movimento contrarrevolucionário que visa exterminar o Software Livre. Eu chamo seus membros de OSIstas, uma mistura de OSI com fascistas, porque eles agem de forma deliberada para eliminar os preceitos filosóficos do Software Livre tonando-o mais palatável ao mercado. Resumindo, são pessoas que não se preocupam com o bem estar social, mas com a adoção dos meios de produção colaborativa pelas corporações.

Um dos seus argumentos mais falaciosos é dizer que Open Source e Software Livre são a mesma coisa, o tal FOSS. Assim podem esconder seus objetivos mercantilistas por trás da visibilidade social do Movimento Software Livre. Enganadores. Os OSIstas rejeitam a filosofia Software Livre, disse Stallman.

No dia 28 de Abril de 2016 o escritor Paul Gillin fez a seguinte entrevista com Richard Stallman. A tradução livre é minha.


Entrevistar Richard Stallman é um desafio.

As anotações para a entrevista tem uma meia dúzia de advertências e pedidos, a maioria relacionadas ao cuidado do Stallman em não ser identificado como um ativista do Open Source. Há também uma longa lista de artigos e FAQ’s que ele sugere a leitura no site da GNU.org que descrevem cuidadosamente a diferença entre Software Livre e qualquer outra definição. E Stallman não hesita em corrigir os entrevistadores no que diz respeito às terminologias. Se não for completamente livre ele não apoia.

A diferença é, de certa forma irônica, porque muito do trabalho realizado por Stallman nos últimos 30 e poucos anos, contribuiu muito para o crescimento do Open Source como o modelo de licença preferido das novas empresas de software. Em 1982 ele lançou o Projeto GNU, esforço de desenvolvimento de software colaborativo com o objetivo de criar toda uma biblioteca de softwares livres. O projeto produziu o sistema operacional GNU e milhares de programas, incluindo o GNU Compiler Collection (GCC) uma tecnologia fundamental que tem papel de destaque no crescimento do software livre. A prestigiada Association for Computing Machinery (ACM) anunciou ontem que Stallman recebeu o prêmio Software System Award da organização, pelo desenvolvimento do GCC.

Stallman é descrito frequentemente como defensor do código aberto, chegam até a designar-lhe sua paternidade. Essa é uma descrição que ele nega com veemência. “Quero que as pessoas me associem ao Software Livre, não ao Código Aberto”, disse. “Eu não quero me pronunciar sobre o Open Source, exceto para deixar claro que ele é diferente do Software Livre”.

Ou, ainda, dizer que o GNU.org soma-se ao Open Source: “As iniciativas do Movimento do Software Livre são pela sua liberdade computacional como uma questão de justiça. O não movimento do código aberto não faz campanha de nada, para nada.” Resumindo, Software Livre é tanto uma filosofia quanto um modelo de licenciamento. “Software Livre não é software gratuito até porque o preço não é a questão”, diz Stallman. “Liberdade é o que importa.”

Para que o software seja realmente livre, “os usuários tem que ter o controle do programa para executá-lo como quiserem e estudar o código fonte do programa e poder modificá-lo”, diz Stallman. “Isso se baseia em duas liberdades essenciais: fazer cópias exatas e poder copiar e distribuir suas versões modificadas como quiser.”

Qualquer coisa a menos “subjulga o usuário”,diz Stallman, e isso viola a liberdade como um todo.

SiliconANGLE entrevistou Stallman no seu escritório em Boston.

Levando em consideração a sua aversão em ser associado ao open source, o fato é que as barreiras para se ter acesso a softwares sofisticados estão caindo. Nós estamos progredindo em direção aos seus objetivos?
Nós estamos falando sobre ter acesso a software livre e não subjugante? Se o software coloca o usuário sob o comando do dono do programa, então eu não vejo isso como progresso.  Nós temos feito progresso em algumas áreas e em outras temos retrocedido. Agora pode-se comprar um computador exclusivamente com softwares livres nele. Ele tem uma BIOS livre, drivers livres, aplicativos livres e até jogos livres. A Free Software Foundation tem quase 4000 membros atualmente, o que foi um crescimento de algumas centenas no decorrer do último ano. [Por outro lado], dispositivos móveis da Apple e Microsoft são completamente fechados. Há uma versão livre do Android chamada Replicant, mas a interface para seus periféricos é secreta. Novos tipos de aceleradores gráficos de PC se comunicam pela rede mesmo quando o computador está desligado.

Então você está dizendo que ampliar o acesso não é um progresso?
Facilitar que as pessoas usem tecnologias que as controle e espie não é um passo adiante para a sociedade. Eu discordo da ideia de fazer da inclusão digital um objetivo se o preço a pagar for o controle de acesso.

A Internet tem nos tornado mais livres?
Os sites na Internet criaram novas formas de supressão, infelizmente. Eu não quero me identificar para acessar a Internet, portanto há coisas que eu não posso fazer. Eu não posso ver as coisas qua as pessoas postam no Facebook porque eu não concordo com os seus termos de prestação de serviços. Se um serviço é executado por outra pessoa, você não tem sequer a possibilidade de controlá-lo. Snowden revelou sob quanta vigilância nos encontramos. Ela é muito maior do que a que existia na União Soviética. Se o governo souber, quem vai onde e quem fala com quem, será o fim da democracia. Precisamos de denunciantes para revelar esse tipo de coisa para que possamos impedí-las, mas o governo chama essas pessoas de criminosas.

Dado o momento atual do open source, não seria mais produtivo se você colaborasse com os defensores do open source em vez de salientar suas diferenças?
O não-movimento do open source foi iniciado em 1998 como uma reação ao nosso movimento. Eles gostam do Software Livre, mas eles discordam dos nossos motivos para defendê-lo. Na prática, open source e Software Livre são basicamente equivalentes, mas as pessoas do open source rejeitam nossa filosofia. Eles acham certo se alguém quiser escrever extensões privativas ao seu software. Então nós temos que nos diferenciar deles.

Seus objetivos são realistas?
É muito fácil olhar para uma meta de longo prazo e dizer que ela é impossível. Mas nunca se vence sem tentar. Conquistar o mundo não é minha definição de sucesso. O sistema operacional GNU Linux é usar por um, talvez dois porcento dos usuários de computador. Isso é um sucesso ou não? Considerando que começamos de basicamente zero, eu diria que temos tido um sucesso estrondoso comparado com nosso ponto de partida.

Desenvolvedores de Software Livre tem se desdobrado para encontrar modelos de negócio viáveis. Remover o lucro não inibe a inovação?
Você está misturando dois problemas diferentes. O lucro motiva as pessoas a escrever software que ninguém escreveria porque este subjuga os usuários. E isso é realmente bom? Suponha que conheçamos um modelo de negócios para fazer comida que envenena as pessoas e não conheçamos um bom modelo de negócios para fazer comida que não envenena as pessoas. É melhor fazer mais veneno ou menos comida? Sua pergunta deixa implícito que software é algo bom, mesmo que remova a liberdade. Eu não aceito isso.

O que um gestor de TI pode fazer para promover a causa do Software Livre?
Não usar software privativo que os coloque sob o poder de outros. Desenvolvedores de software privativo tratam os usuários como otários. Eles provém de um meio sem nenhuma vergonha. E não é apenas controle: software privativo é quase sempre cheio de malware. Eles fazem esses programas para te espionar, te limitar e nao permitir que você faça determinadas coisas com seu computador. Há dúzias de exemplos bem documentados em http://www.gnu.org/proprietary.

Hoje em dia temos todo o conhecimento do mundo na ponta de nossos dedos. Pode-se pensar que isso nos faria uma sociedade mais esclarecida, mas os Estados Unidos está mais polarizado agora do que durante a Guerra do Vietnam. Isso te surpreende?
Faz sentido quando você entende a forma como o sistema rastreia as pessoas está feito para coletar informações e organizá-las em bolhas onde elas, as pessoas, só veem aquilo com o qual elas concordam. Isso é o filtro bolha. Sistemas não deveriam poder rastrear as pessoas. Eu não me importo de pagar para fazer download de alguma coisa, desde que eu possa fazê-lo anonimamente. Não deveria haver restrições nem gestão de direitos digitais.

Fonte: http://siliconangle.com/blog/2016/04/28/gnu-founder-stallman-open-source-is-not-free-software/

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Alertas de sistema no Actor IM

Se você ainda não conhece o Actor IM, então a hora é essa. Trata-se de um Instant Messenger 100% livre nos moldes dos famigerados WhatsApp e Telegram (não sei qual dos dois é mais devasso). Por ter seu servidor livre, também, ele te permrite instalar suas próprias instâncias cliente+servidor. Maiores informações você encontra no site deles: ACTOR IM

Nunca usei o WhatsApp, e abandonei o Telegram assim que descobri o Actor. Então no último ano venho aprendendo mais e integrando ele cada vez mais no meu cotidiano pessoal e profissional. Há algum tempo postei um artigo sobre virtualização com OpenVZ, e chegou a hora de automatizar a criação e ativação de containers (máquinas virtuais) em função do número de acessos que o site recebe.

Funciona muito bem, assim quando a quantidade de acessos chega a X por servidor do cluster, o programa ativa ou cria um novo container, baixando a média de acessos que cada servidor atende, balanceando dinamicamente a carga, distribuindo-a igualmente para todos os servidores do cluster. Mas fazer isso e não avisar não é aceitável, então ativei minha “velha” rotina de alertas por e-mail. Foi então que me passou pela cabeça: que legal seria receber alertas como esse no Actor!

Fiz uma pesquisa e achei este link da documentação do Actor chamado Web Hooks – Integration token for groups onde ele explica que via POST pode-se enviar uma mensagem para um grupo do Actor. Não era exatamente o que eu tinha em mente, pois a ideia era enviar uma mensagem para mim mesmo e não para um grupo, mas, sou brasileiro e não desisto NUNCA! 🙂

  1. Criei uma segunda conta no Actor usando o e-mail de envio de alertas. Assim, agora tenho duas contas no Actor: uma via número de telefone e outra via e-mail;
  2. Com duas contas pude criar um grupo;
  3. No grupo, no final da lista de membros, está o “Integration Token”. Trata-se de uma URL que nos permite interagir diretamente com um grupo do Actor;
  4. Me certifiquei de ter o comando curl instalado no meu GNU.

P.S. O Alessandro Feitosa AKA PHP com Rapadura, percebeu que pode-se criar um grupo contendo só a sua conta padrão. Como não sabemos se é um bug ou não, aproveitem!

Com esses “ingredientes” era hora de testar:


# curl -H "Content-Type: application/json" -X POST -d '{ "text": "Alerta" }' URL_do_integration_token_aqui

Lindo, simples e muito funcional!

Usem Software Livre, 100% Livre!

Saudações Livres!

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Bom Sol OSIstas

Então um dia ele acorda, lava o rosto e ao encontrar com a família deseja bom dia. Segue-se o seguinte diálogo:

– “Bom dia, querida família!”.

Eles se entreolham e com caras meio tortas de desânimo respondem

– “Bom Sol”

Com um sorriso maroto, convicto de que se trata de uma pegadinha familiar, ele completa

– “Bom Sol, entendi, de dia tem Sol, em vez de bom dia, bom Sol. Faz sentido, muito boa essa piadinha!”

– “Ué Papai?, Piadinha não. Ninguém mais diz bom dia. Agora é bom Sol.” Diz o filho mais novo.

– “Como assim? Desde quando a definição de dia mudou? Dia é dia, certo?” ele responde.

– “Querido, calma, não se exalte. Veja bem, dia e Sol são a mesma coisa. Sem o Sol não haveria o dia, afinal de contas o Sol faz o dia. Então podemos desejar bom dia ou bom sol. É igual” tentou contemporizar a esposa.

– “Mas dia é um conceito temporal, definido pelas horas do dia que se converte em uma saudação afetuosa. O Sol é uma estrela, um copo celeste. Entendo as similaridades, mas são coisas diferentes!” ele argumenta de forma enfática.

– “Como você é radical! bom sol é a evolução natural de bom dia! Bom dia é velho, restritivo e ideológico demais!” justifica, impaciente a filha mais velha.

– “Ideológico? Restritivo? Como assim? Do que você está falando?”

– “O dia é limitado, só tem 24 horas. E se for considerar os momentos com luz, então estamos falando de menos de 12 horas. Por outro lado, o Sol é basicamente eterno, brilha o tempo todo e está disponível para todos. É muito maior, mais livre e mais legal.” Explica o caçula.

– “Caramba. Bons argumentos, mas isso justifica mudar o nome da saudação, sua definição e….” desenvolvia ele, quando é interrompido.

– “Claro que sim! Mas você pode dizer bom dia se achar melhor. É velho, mas as pessoas vão entender, afinal de contas, bom dia e bom sol, são a mesma coisa”. Define a esposa.

– “Pera um pouco! Como assim são a mesma coisa? Vocês podem ter bons argumentos, e até entendo que há mudanças idiomáticas, mas não são a mesma coisa. O dia é o dia, e o Sol é o Sol. Um bom Sol é desejar uma estrela mais brilhante? brilhante por mais tempo? mais quente nos países mais frios e mais frio nos países quentes? Acho que vocês podem inventar um novo termo para desejar um bom dia para as pessoas, mas não podem simplesmente colocar dois conceitos diferentes para significar a mesma coisa. Isso confunde as pessoas.”

– “Confunde nada! Você é quem está sendo intransigente!” retruca a esposa.

– “Mas quem invetou isso de bom sol? de onde saiu isso?” questionou ele.

– “Vish! Papai, isso é o maior viral da Internet, esta no Facebook, Instagram, Snapchat e Youtube. É o maior sucesso dos últimos anos! Olha aqui…” a filha mais velha abre no tablet um vídeo de 30 segundos. Uma propaganda da Cerveja Sol.

– “Puts! Então quer dizer que o mundo decidiu mudar a saudação bom dia, por bom sol, graças aos interesses comerciais de uma cervejaria?”

Nesse momento a esposa já apitava de dentro do carro e os filhos foram embora. Ele ficou ali, plantado, pensando nas implicações.

Software Livre é um movimento social e político que objetiva mudar o mundo empoderando o usuário final. Open Source defende que o modelo de desenvolvimento colaborativo, permitido pelo acesso ao código, é muito mais eficiente e produtivo para as empresas. Assim percebe-se claramente que o viés de interesse dos dois movimentos é antagônico. Enquanto um tem cunho social o outro é mercadológico. Se um dia o Software Livre foi acusado de ser comunista, o Open Source é a essência capitalista. O elo em comum é a liberdade do código. Mas não há como estabelecer uma relação evolutiva entre os movimentos. Quero dizer que um não é a evolução do outro. Eles usam a mesma “ferramenta” com objetivos antagônicos. É como usar um martelo para construir ou destruir.

Num mundo ideal, a liberdade de opinião é inalienável. E citando Voltaire “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.” Então não tenho  a mínima pretensão de calar ninguém, apenas apelo por lisura, decência e honestidade. Não confunda as pessoas. Ao menos não deliberadamente.

Se Software Livre e OpenSOurce são movimentos ideologicamente antagônicos, porque colocá-los como sinônimos? Trata-se de campanha midiática, marketing, enganação de mercado, perfilamento de conceito de produto, coisas do “business”. Como o Software Livre tem um apelo social, aquela coisa de ajudar a todos e ser bom para todos, a OSI faz toda a força possível para pegar carona nessa imagem de politicamente corretos. Essa é uma estratégia de marketing super comum. Os antigos comerciais de TV de cigarro, que mostravam uma galera jovem e saudável, fazendo esportes radicais e depois fumando, é um excelente exemplo.

Que fique claro: OSI é pró mercado e empresas, o Software Livre é pro social e pelo usuário final. Cabe a você escolher um lado. O problema está nos falsos ativistas que dizem que Software Livre e OSI são a mesma coisa, quando não são. Esses são os OSIstas, os enganadores.

E há muitos deles, especialmente no Brasil: Alberto Azevedo, Sílvio Palmieri e Hélio Loureiro – só para citar alguns – são velhos OSIstas. Eles defendem com todas as suas forças que o mercado é o fundamental e que o Software Livre está velho, vencido, ideologicamente ultrapassado, radical demais. Eles também sugerem que o OpenSource é a evolução natural do Software Livre e que é importante, e até mesmo desejável, distribuir software não livre para ajudar a disseminar e atrair mais usuários para o Software Livre.

Qualquer semelhança com as velhas raposas da política não é mera coincidência. Esses caras estão para o Software Livre como os políticos José Serra, FHC e Aloysio Nunes estão para a esquerda. Dantes militantes comprometidos com os anseios sociais, presidentes da UNE, guerrilheiro do Araguaia e professor de Sociologia, esses três representam, hoje, o que há de mais nefasto, entreguistas e lambe botas de nossa república. Serra e Aloysio com seus projetos de entrega do pré-sal aos interesses estrangeiros e membros do “governo” golpista de Michel Temer. FHC como o maior privatista da história do Brasil. Canalhas!

Mas sempre há interessados em engrossar as fileiras dos enganadores. O mais novo OSIsta é o jornalista Kemel Zaidan. Em um artigo intitulado “O Software Livre venceu” ele desfila quase toda a lista de argumentos comuns usados para confundir e enganar as pessoas.

  1. Ele se refere ao sistema operacional como Linux. Sabemos que Linux é um kernel e não um SO. O nome do SO é GNU, mas “isso não vem ao caso”;
  2. O texto usa a adoção de softwares OpenSource pelas empresas como argumento de sucesso do Software Livre. Por que, se são coisas diferentes?
  3. Ele conclui dizendo que o Software Livre passou a ser mainstream. E ai se estabelece a tentativa de diluir os dois conceitos, fazendo parecer que Software Livre e OSI são a mesma coisa.

É sutil o suficiente para enganar até os mais atentos. É feito com muito esmero e cuidado. É coisa de profissional, afinal de contas Kemel é um jornalista experiente, foi editor da Linux Magazine, e já foi um arraigado ativista de Software Livre, tendo participado de dezenas de fóruns e eventos, inclusive como palestrante. Então não se trata de uma confusão inocente, nem um ato de ignorância. É deliberado.

O detalhe é que um ativismo honesto pode ser feito. Em um artigo publicado em janeiro, chamado “Linux and open source have won, get over it” o Steven J. Vaughan-Nichols já fazia a mesma análise do Kemel, mas de forma clara, como um bom ativista OSI, sem enganar ninguém: vejam que ele não cita Free Software nem uma única vez. Sequer aparece na página. Então eu posso concordar com a análise Steven, afinal de contas o objetivo da OSI foi alcançado e o Linux e a OSI venceram, mas não o Software Livre, pois nenhuma das vitórias descritas são objetivos do Software Livre.

Então fica meu apelo aos OSIstas: saiam do armário!

Saudações Livres!

 

Publicado em Sobre mim2

É o fim do FISL?

O FISL sempre foi o maior alicerce do Software Livre no Brasil e quiçá, do mundo. Com mais de uma dezena de milhares de participantes, ele sempre foi a materialização de que o Software Livre estava dando certo, conquistando corações e mentes, crescendo e revolucionando a sociedade. Lembro muito bem da minha excitação de ir ao FISL 1, de ter ficado, acidentalmente no mesmo hotel dos palestrantes, de ver de perto meus heróis e modelos que tinham a coragem de entender o aspecto revolucionário que a liberdade do software traria à sociedade. Finalmente eu estava entre pares, que entendiam, respiravam e militavam pelos mesmos ideais. Finalmente eu podia dizer GNU ou Linux sem receber uma careta de desentendimento como resposta.

Todos concordavam que o Software Livre era um movimento político e social que tem por objetivo empoderar o usuário final através da liberdade do software. Stallman era o guru inquestionável e a GPL a carta magna dessa revolução. Não havia nenhuma dúvida e o inimigo a ser combatido, também era evidente: o software não livre, viesse de onde viesse. Naquele tempo o indiscutível representante do “mal” era a Microsoft. Empresas como Google eram pequenas demais para serem consideradas uma ameaça.

Ao longo desses 18 anos o movimento tem sido vitima de uma ação de sabotagem planejada, coordenada e levada a cabo de forma sistemática pela OSI. O objetivo é extirpar o conteúdo ideológico do movimento: Software Livre deve significar apenas a liberdade de acesso ao código, nada mais. A primeira estratégia foi criar um outro nome para isso: Open Source. Assim falava-se em liberdade e desenvolvimento compartilhado, mas sem o conteúdo revolucionário, pueril, irresponsável e ideológico. A áurea de maturidade vinha embutida em termos como negócios, mercado, corporações, soluções e outros jargões do “business”. A segunda estratégia foi associar o seu nome ao Software Livre como sendo sinônimos. Isso foi feito apelando para os valores do próprio movimento: amizade, respeito, integralidade, universalidade. “Juntos somos mais fortes” dizem, “lutamos todos pelo mesmo objetivo” dizem.

Com o objetivo claro de não confrontamento aos interesses empresariais e de mercado, foi fácil receber apoio financeiro e assim fortalecer suas representações organizadas, grupos de usuários, propaganda, participação em eventos e todo tipo de promoção advinda de uma conta bancária recheada. Enquanto a FSF e os G/LUG’s vivem a base de doações de indivíduos que acreditam que podem e devem mudar o mundo, a OSI e suas representações recebem apoio empresarial. Entre as ações mais óbvias estão a remoção do termo GNU do nome do sistema operacional, promovendo que se diga somente Linux, forçando a marca do Pinguim como logotipo de Software Livre em detrimento do GNU. Outra ação é a disseminação de termos como FOSS ou FLOSS que colocam Open Source e Software Livre como idênticos.

A força dessas ações é imensa e foi feita sem nenhuma pressa ou açodamento. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Lentamente corações e mentes foram sendo conquistados. Até o próprio Stallman se deixou levar e, apesar dele esclarecer que OSI e SL não são iguais, ele mesmo diz que o “OpenSource não é nosso inimigo, o software não livre é”. Santa ingenuidade. Tanta, que mesmo depois de tantas evidências, a FSF decidiu, em pleno 2016, ajudar nossos “irmãos” na organização do encontro OSI nos USA. Que triste.

Gradativamente os conceitos OSI vão permeando e fragilizando a força ideológica do Movimento Software Livre. Defende-se a aceitação de alguma presença de softwares não livres com o objetivo de popularizar o uso do “Linux” pelos usuários comuns, aceita-se o financiamento de empresas não alinhadas para o desenvolvimento de softwares e a realização de eventos, converte-se empresas diabólicas como a IBM, Google e Facebook em parceiras do movimento, fragilizam-se os critérios de seleção de trabalhos para os maiores eventos do mundo, suaviza-se o discurso ideológico nas intervenções na mídia tradicional. Pequenas ações comunitárias começam a ser aceitas: os grupos de usuários já podiam usar as ferramentas do Google sem constrangimento. Tudo até culminar com o fim das comunidades de usuários em seus espaços independentes e serem todos sugados para dentro do Facebook. “Have fun” passou a ser o mantra divulgado pelo Linus Torvalds e amplamente aceito pela comunidade Software Livre.

Assim a horda de nerds, cavaleiros da nova ordem global, os revolucionários digitais, foram convertidos em mais uma comunidade dentro da plataforma de controle em escala global. Assim a massa de militantes ideológicos foram convertidos em OSIstas. Um bando de nerds que estavam muito mais interessados em se divertir do que em mudar o mundo. E esse mantra foi divulgado, incentivado e assumido por velhos ativistas, que perceberam as mudanças, mas decidiram embarcar na onda em vez de fazer um contra-ponto. A cada “Linux” sem explicação, a cada conta do Gmail, a cada “like” do Facebook, a cada novo iPhone, foram eles os responsáveis pela popularização dessa versão suave de Software Livre que é atual “status quo”.

É tanto que hoje “Software Livre” já é sinônimo de “Open Source”. Isso é tão evidente que numa entrevista recente ao TED o próprio Linus Torvalds diz “Software Livre, que era como se chamava o Open Source, naquela época”, dando a entender que Open Source é o novo nome do Software Livre, ou seja, que são a mesma coisa, mas agora com outro nome.

Essa transformação foi catalizada, também, pelo FISL e pela ASL – Associação do Software Livre. Quando advertidos dos riscos, seus dirigentes sempre argumentaram de que a diversidade de ideias e atores era mais importante e que não se deveria “radicalizar”, como se a convivência com opositores ao próprio movimento fosse algo positivo. Assim o FISL captou recursos com empresas como Google, IBM, Oracle e outras gigantes do software não livre, representantes da ideia de que Open Source e Software Livre são a mesma coisa. Ao mesmo tempo permitiram uma grade de palestras cada vez menos ideológica e menos comprometida com a revolução social e mais alinhada com os anseios do mercado. Assim, no decorrer da última década, o FISL ajudou a desmobilizar ideologicamente o movimento, enfraqueceu a militância e ajudou a estereotipar o termo Software Livre.

Qualquer semelhança com a atual situação política, na qual o próprio PT tem sua responsabilidade, não é mera coincidência. No plano político o PT, na mesma década, adotou um discurso conciliatório, buscou uma linha “do meio”, enfraqueceu seu viés ideológico, desmobilizou a militância e entregou muito anéis aos interesses do mercado. Da sua representação da esquerda socialista a “compadres” da ala mais fisiológica do PMBD. Não nos deixemos iludir, Dilma, Lula e o PT firmaram sim acordos inimagináveis se associando ao que há de mais golpista, reacionários, bandidos e retrógrados da nossa república. Tudo em nome da governabilidade e dos grandes planos de transformação social. O FISL e a ASL fizeram o mesmo no campo da ideologia do Software Livre, se associaram e pretendem expandir a associação com o que há de mais vil e antagônico ao Software Livre.

Este ano, o FISL 17 periga não acontecer. A crise econômica afugentou os patrocinadores governamentais e também os privados. Num momento de instabilidade econômica os participantes decidiram guardar suas economias ou não se endividar para ir a até Porto Alegre, como de costume. Então a ASL lançou uma campanha de doação na comunidade para tentar angariar fundos e viabilizar o evento. Afinal de contas somos mais de uma dezena de milhares de participantes anuais, mas apenas 166 voluntários se prontificaram em ajudar. E esse é o reflexo de uma militância enfraquecida, ela não oferece o respaldo necessário. Afinal de contas, durante anos, os militantes do Software Livre foram convertidos em OSIstas, e os OSistas não militam, ele fazer “business” e o FISL é um péssimo negócio. E agora é também um péssimo palco para ativismo.

O fato é que o evento não está conseguindo se viabilizar e momentos de desespero exigem medidas desesperadas, certo? “Iniciamos uma aproximação com a Microsoft e se vierem para o FISL para falar e apresentar softwares livres, estão dentro.” foi a mensagem da diretoria na lista de discussão da ASL. Assim os contatos com a Microsoft já foram inciados no sentido de tê-la como patrocinadora Super Platinum do FISL 17 e poder, assim, viabilizar o evento.

Lembremos que antes da Microsoft, o FISL recebeu de quase todas as demais empresas de tecnologia que representam o que há de mais antagônico ao Software Livre. Então qual seria o grande constrangimento de ser patrocinado pela gigante de Redmond? Apenas a máscara que cai e se quebra em milhões de pedaços. Nunca mais será possível usá-la. A Microsoft é mundialmente famosa por seus acordos escusos, dump de mercado, desrespeito às legislações, invasão de privacidade, corrupção e muito mais. Ela é de uma época em que empresas poderosas não se preocupavam com manter uma imagem moderna e limpa, como fazem o Google e a Apple. Eles jogam sujo e se vangloriam disso. E todos os líderes e principais expoentes do FISL e da ASL sabem bem disso. O grande problema não é ter a Microsfot como patrocinadora do FISL, mas sim, ter a ASL considerando essa hipótese.

O “Software Livre” morreu porque essas duas palavras não significam mais um movimento social e político. Elas foram desvirtuadas e agora tem o mesmo significado de “Open Source”. As forças interessadas conseguiram fazer isso com outros conceitos como “Hacker” que de nerd inteligente e desafiador, se transformou em bandido cibernético. Perdemos essa guerra. Hora de nos reinventarmos, hora de mudar de rumo, de foco, de ação e de abordagem. Hora de resgatar até mesmo o Stallman.

Aqui fica meu apelo à ASL e ao FISL: não deem esse passo. Se for necessário não façam FISL este ano. Reagrupem, repensem a militância, retomem o caminho certo, separem os ativistas dos OSIstas. Sempre é tempo de recomeçar. Caso contrário será o fim do FISL e o nascimento definitivo do FICA – Fórum Internacional do Código Aberto.

 

Saudações Livres!

 

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